A eventual recuperação da América Latina da crise da Covid-19 provavelmente será gradual e desigual.

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Este conteúdo foi escrito pela The Economist Intelligence Unit, com o apoio do J.P. Morgan

 

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Análise

 

"O grande lockdown de 2020", como está sendo chamado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), deve ofuscar praticamente todas as outras crises da história moderna, levando a América Latina e o Caribe (LAC) à sua mais profunda recessão desde 1930. A crise também está fazendo com que os analistas econômicos se esforcem para se manter atualizados e colocou o panorama econômico de longo prazo da região em dúvida. A Covid-19 vem no momento em que a região se preparava para se recuperar do fim do ciclo das commodities. Assim, o Diretor do Hemisfério Ocidental do FMI, Alejandro Werner, agora alerta sobre a possibilidade de outra década perdida (2015-25) — de crescimento nulo do PIB per capita — para a região.

PIB real per capita: LAC

Fontes: Banco Mundial; The Economist Intelligence Unit.
Banco Mundial para dados históricos (1970-2018); The Economist Intelligence Unit para estimativas de 2019 e previsões para 2020.
Um gráfico em barras mostrando o PIB real per capita para a América Latina e o Caribe (mudança de porcentagem, ano a ano), destacando a Década Perdida e o Boom das Commodities.

Algumas tendências básicas já estão evidentes. As economias da América Latina são extremamente vulneráveis, apoiando-se fortemente no setor externo e nas commodities e caracterizado por um setor informal significativo e bastante desprotegido. A resposta da política econômica, apesar de não ser bem "o que for necessário", provavelmente, em muitos casos, será firme, não obstante o peso dos altos endividamentos e a probabilidade de uma ressaca de dívidas de longo prazo para a região que pode complicar as perspectivas de mais longo prazo para algumas economias. A resposta de contenção, na maioria dos países (com notáveis exceções para o Brasil e México), tem sido rápida e robusta, refletindo as fraquezas dos sistemas de saúde que amplificaria os efeitos de um escalamento descontrolado do vírus.

Para examinar essas tendências com mais detalhes, a The Economist Intelligence Unit desenvolveu um “mapa de calor” que compara como as maiores economias da LAC-6 estão posicionadas para enfrentar os impactos da Covid-19 (em 29 de abril de 2020). O propósito é ajudar a determinar quais países estão melhor posicionados para manejar a crise e se recuperar com maior rapidez.

 

Principais áreas para acompanhar

 

Apesar de, sem dúvida, haver um alto nível de incerteza em torno de resultados em potencial, acreditamos que haja várias áreas importantes a acompanhar para ver como a crise - e a recuperação da crise - se desenvolvem na região: primeiramente, fatores relacionados a serviços de saúde, incluindo a capacidade do sistema de saúde e políticas de contenção do governo; em segundo lugar, a resposta de políticas econômicas, incluindo a política fiscal e monetária; em terceiro, fatores econômicos estruturais; quarto, fatores institucionais que serão, em última instância, cruciais para determinar quais das grandes economias da América Latina terão melhor desempenho nos próximos trimestres, emergirão menos enfraquecidas pela crise e conseguirão emplacar taxas de crescimento mais elevadas no médio prazo.

1. A capacidade do setor de saúde varia regionalmente.

A qualidade e cobertura dos sistemas de saúde varia em cada região. O 2019 Global Health Security Index (GHSI - Ìndice de Segurança em Saúde Global), elaborado pela The Economist Intelligence Unit com o apoio da Nuclear Threat Initiative e do Johns Hopkins Center for Health Security, concluiu que "nenhum país está totalmente preparado para epidemias ou pandemias", mas também notou que as lacunas em alguns países foram significativamente maiores do que em outros. Na América Latina, as maiores economias da região — Argentina, Brasil e México— todas têm desempenho relativamente bom no GHSI. Em comparação, as nações andinas (com a exceção do Chile) têm grandes deficiências em seus sistemas de saúde que refletem os anos de pouco investimento nesta área. Mas, dito tudo isso, fica claro que a América Latina gasta menos e tem menos leitos hospitalares, médicos e enfermeiros per capita do que a média da OCDE. As deficiências do sistema de saúde são especialmente claras no alto nível de gastos próprios com saúde na região — que aponta para uma falta de acesso à saúde pública e que impõem um grande desafio no contexto de uma renda disponível que está despencando.

Gastos próprios com saúde

Fontes: Banco Mundial; The Economist Intelligence Unit.

Dados de 2016

Um gráfico em barras, mostrando a porcentagem de gastos próprios em saúde para a América do Norte, Europa e Ásia Central, Ásia Ocidental e Pacífico, Oriente Médio e Norte da África, América Latina e Caribe, África Subsaariana e Sul da Ásia.
Mas mesmo os sistemas robustos de saúde podem apenas reduzir o estrago econômico das medidas de contenção necessárias, e não evitá-lo completamente, e isso ficou claro pelas experiências europeias e norte americanas com a Covid-19. Nesse contexto, os governos da América Latina e o Caribe (LAC), em sua maioria, reconheceram a necessidade de agir de forma decisiva; para o país médio da LAC, houve apenas nove dias entre a confirmação do primeiro caso de coronavírus localmente e o lockdown total do país. Os países andinos e da América Central foram os primeiros a responder, provavelmente pelo reconhecimento da capacidade extremamente limitada de seus sistemas de saúde para lidarem com uma crise prolongada de saúde pública. Na outra ponta, os governos do Brasil e do México, países que ostentam sistemas de saúde melhores, foram lentos em implementar mesmo as mais básicas intervenções não farmacêuticas, refletindo problemas de liderança política em resposta à crise em ambos os países.

Tempestividade da resposta governamental em economias selecionadas da LAC

Observação: Os governos federais do Brasil, México, Nicarágua e Uruguai não haviam determinado lockdown nacional até 15 de abril.

Fonte: The Economist Intelligence Unit.

Lockdown definido como a suspensão de toda a atividade econômica "não essencial" e fechamento de fronteiras nacionais.

Uma barra mostrando as linhas do tempo da resposta governamental em economias selecionadas da América Latina e do Caribe. O gráfico mostra o número de dias a partir do primeiro caso de COVID-19 confirmado nesses países até o anúncio de um lockdown pelo governo federal.

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As medidas de contenção, entretanto, são apenas meios para se alcançar um fim. Como a experiência sul-coreana sugere, para sair do lockdown e gradualmente reabrir a economia, os governos precisarão implementar uma estratégia agressiva de "testar e monitorar". Os governos do Chile e do Peru agiram rapidamente para comprar equipamentos de testagem e expandir a capacidade dos laboratórios, dando a esses países a vantagem de serem os primeiros a agir. Entretanto, na maior parte da região, a testagem continua inadequada. Um pico na demanda global para equipamentos de testagem e reagentes químicos significou que os países de baixa e média renda da LAC precisaram competir com economias mais ricas, em muitos casos sendo colocados no fim da fila.

Índice de testagem de Covid-19, economias selecionadas

Fonte: The Economist Intelligence Unit.

Testes por dia calculados como uma média dos últimos 5 dias para os quais estavam disponíveis dados de testagem em 15 de abril.

Um gráfico mostrando a taxa de testagem para COVID-19 em economias selecionadas (testes por milhão de pessoas por dia) — México, Brasil, Argentina, Colômbia, Chile, Peru e Coreia do Sul.

2. Avaliando a capacidade de estímulo econômico.

Sem dúvidas, a capacidade dos sistemas de saúde dos países da região influenciará a resposta de cada um à crise. Entretanto, na medida em que a pandemia gera uma interrupção repentina das atividades, os governos precisam se posicionar para minimizar os danos à economia. A severidade da recessão e a força da recuperação subsequente em um dado país dependerá, em grande parte, do espaço disponível ao governo para implementar políticas contracíclicas, a confiança pública na eficácia das políticas de estado e a resiliência da economia em face aos choques externos.

Com a economia em estado de coma induzido, os governos estão usando as alavancas de políticas o máximo possível, para dar o apoio extremamente necessário às famílias e empresas. Os bancos centrais da região gradativamente têm afrouxado as políticas monetárias, ao cortar taxas de juros e implementar ferramentas incomuns para desobstruir o sistema financeiro e aliviar restrições de liquidez. Entretanto, a eficácia da política monetária será um pouco limitada no contexto da vertiginosa queda na demanda. O resultado disso será que grande parte do peso recairá sobre a política fiscal para reiniciar a atividade econômica. Em certos aspectos chave, a região como um todo está menos preparada para o desenrolar da crise do que estavam quando a crise financeira chegou em 2008-09, com as dinâmicas fiscais e de endividamento da maioria dos países agora significativamente mais fracas do que em 2007. O gráfico abaixo mostra como os países assumiram mais dívidas públicas.

Endividamento público, 2007 x 2019

Fonte: The Economist Intelligence Unit.
Uma barra mostrando a mudança de pontos percentuais na razão entre endividamento público e PIB entre 2007 e 2019 para países selecionados da América Latina e Caribe.

Mas, apesar de restrições orçamentárias, muitos governos da LAC já começaram a desenvolver programas fiscais de tamanho considerável. Os planos para apoiar o consumo incluem transferências diretas de dinheiro, aumento de benefícios de previdência social, aumentos na aposentadoria e subsídios para a folha de pagamento. Quanto aos investimentos, os governos aumentaram os orçamentos para obras públicas (principalmente em infraestrutura de saúde), proporcionaram alívio fiscal ou diferimento fiscal para empresas e instituíram linhas de crédito de baixo custo para ajudar as pequenas e médias empresas (PMEs) a se sustentarem. Países como Chile e Peru responderam com os programas fiscais mais ambiciosos até agora (equivalente a 7% do PIB e 12% do PIB, respectivamente), e devem conseguir financiar seus gastos com uma relativa facilidade, por conta de um histórico de gerenciamento fiscal prudente e ortodoxia econômica. O fato dos mercados de capital locais estarem mais desenvolvidos do que no passado será útil, bem como a reserva razoável que alguns países têm. Até países com altos níveis de endividamento, como a Argentina e o Brasil, comprometeram recursos significativos (de mais de 3% do PIB) para combater a crise da Covid-19. No entanto, o financiamento desses pacotes será difícil, e o desafio de compensar o excesso de dívida resultante pesará na recuperação econômica do outro lado da Covid-19.

3. As economias da LAC compartilham deficiências estruturais em comum.

Mesmo para os países que seguem todas as regras no fronte fiscal, ainda haverá muitos desafios. Muitos governos da região enfrentam altos custos administrativos e baixa capacidade técnica, que restringirão a eficácia da política fiscal para estimular a demanda. Implementar políticas fiscais direcionadas é ainda mais complicado por conta dos altos índices de informalidade. No país mediano da LAC, mais da metade da mão de obra está empregada informalmente, deixando uma grande parcela dos trabalhadores fora do âmbito das redes de segurança tradicionais. Apesar de alguns países terem políticas com foco específico na proteção de trabalhadores informais, há grandes problemas de implementação que surgem a partir de uma falta de inclusão financeira. De acordo com a Global Financial Inclusion Database (Banco de Dados Global sobre Inclusão Financeira) do Banco Mundial e o Global Microscope da The Economist Intelligence Unit, somente 55% dos adultos na LAC têm uma conta em uma instituição financeira formal. Isso está abaixo do nível comparativo para o Sul da Ásia (70%), Ásia Oriental e Pacífico (74%) e a média global geral (69%).

Penetração de contas

Fontes: Banco Mundial; The Economist Intelligence Unit.

Dados de 2017

Uma barra mostrando a penetração de contas através da porcentagem de adultos com uma conta em uma instituição financeira formal, para países selecionados da América Latina e Caribe em comparação à média regional.

Outra grande vulnerabilidade estrutural, a qual as políticas fiscais pouco podem ajudar, é a dependência da região no setor externo. O progresso na diversificação econômica nas últimas décadas foi apenas moderado, sendo que muitas economias regionais ainda se baseiam fortemente nas exportações de commodities para o crescimento econômico. Os exportadores de commodities da região agora enfrentam o golpe duplo do colapso dos preços das commodities (que reduzem as rendas econômicas) e o menor volume de exportação. Finalmente, para toda a LAC, a interrupção nos negócios e a incerteza fará com que os investimentos estrangeiros diretos (FDI) internos despenquem este ano. Isso será bastante danoso em uma região em que as poupanças domésticas estão fracas e os FDIs são responsáveis por 3% do PIB e 15% do investimento fixo total.

4. Os fatores institucionais também terão um papel relevante.

Indo para além dessas vulnerabilidades compartilhadas, há uma variação significativa no desempenho das economias da LAC em outros indicadores de forças institucionais. Na nossa visão, o clima de investimentos promovido por governos ao longo dos anos terá um papel determinante na força de uma eventual recuperação econômica. Em relação a isso, países como o Chile, Peru e México estão bem posicionados, tendo progredido em reforçar seus ambientes de negócios ao desregulamentar o comércio, reforçar as proteções de investidores e aprofundar os mercados de capital domésticos. Em comparação, na Argentina e no Brasil vários anos de governos de esquerda nos anos 2000 ajudaram a produzir grandes estados regulatórios e mercados de trabalho inflexíveis, aumentando as preocupações de investidores em relação a direitos contratuais.

Dito isso, políticas e regulamentações são apenas tão eficazes quanto os governos que as implementam. O Chile, mais uma vez, se destaca nesse sentido: as leis anticorrupção são devidamente aplicadas, os sistemas de licitação pública são transparentes e os processos judiciais são rápidos e independentes. Entre as importantes economias da região, Argentina e Colômbia também fizeram progresso na redução de captura regulatória nos anos recentes. Entretanto, na maior parte da região, o risco da eficácia política se mantém extremamente alto, por conta de uma burocracia mal treinada e uma cultura alarmante de corrupção e impunidade política.

 

Olhando para o futuro

Enfrentando pressões de vários lados, a eventual recuperação da América Latina da crise da Covid-19 provavelmente será gradual e desigual. Países como Chile, Peru e Colômbia têm maiores chances de emergir de maneira mais rápida e sustentável do grande lockdown. Isso se deve não apenas a ações decisivas da liderança política em face à pandemia, mas mais amplamente aos cenários econômicos e regulatórios que conduzem crescimento de médio e longo prazo. Em comparação, as maiores economias da LAC (Argentina, Brasil e México) enfrentarão mais obstáculos para restaurar a confiança do consumidor e das empresas, pesando suas perspectivas econômicas no médio prazo, o que significa que terão mais risco de sofrer uma "década perdida", de 2015-25.

Olhando para o futuro, os investidores estão começando a se posicionar para a fase da recuperação para identificar oportunidades de investimento e ver quais setores provavelmente terão melhor desempenho. A produção e exportação das soft e hard commodities (e a logística na qual estão baseadas) provavelmente não serão afetadas significativamente por medidas de distanciamento social continuada, pois esses setores são menos dependentes de mão-de-obra e as atividades são realizadas em maior parte longe dos centros urbanos. Com a demanda por petróleo em colapso no curto prazo e uma suave demanda pelos metais no interim, o panorama das commodities vai se depender da recuperação da demanda de exportação dos principais mercados: China, EUA e o restante do mundo. Nossas previsões sugerem que após uma recuperação da contração deste ano, o crescimento do PIB global (em taxas cambiais) ficará na média pouco abaixo de 3% em 2022-25, com um panorama razoável para as exportações de commodities na América Latina.

A maioria das empresas grandes de manufatura da LAC conseguirão reiniciar as operações, com normas de distanciamento social nas fábricas de maneira adequada. Apesar do auxílio financeiro oficial, mesmo algumas das maiores empresas sofrerão, possivelmente revelando oportunidades de fusões e aquisições por investidores locais e estrangeiros. As PMEs sofrerão o maior impacto e as empresas maiores que atualmente as utilizam no fornecimento podem precisar reavaliar essa estratégia e passar a comprar de fornecedores estrangeiros, mudando as cadeias de suprimentos. A crise pode levar executivos de empresas a se adaptarem a IA e tecnologias robóticas em suas operações.

Serviços, que são de longe o maior setor da economia, enfrentarão os maiores desafios, conforme as pessoas vão se adaptando às novas circunstâncias, e isso afetará principalmente restaurantes, viagens, turismo e outros setores de hospitalidade. Atividades de e-commerce, incluindo varejo, provavelmente irão crescer. Os serviços financeiros provavelmente serão os menos afetados, pois mais operações serão feitas on-line, apesar de a demanda para os serviços depender de uma recuperação adequada dos gastos domésticos e empresariais.