O lugar que chamamos de "lar" pode influenciar a forma em que investimos, mas esse viés de familiaridade pode trazer riscos. Aprenda a reconhecê-lo e optar por portfólios globais e diversificados.

Por Xavier Vegas

Lar doce lar

 

O lugar que chamamos de lar tem grande influência sobre nós — dos produtos que compramos até os alimentos que consumimos, aos esportes para os quais torcemos, tendemos a gravitar em direção ao que é familiar. Isso também acontece com investimentos, especialmente os de renda fixa.

Todos nós gostamos de investir naquilo que achamos que conhecemos. Isso nos dá a sensação de confiança de que, apesar da volatilidade do mercado, tudo ficará bem no final. Infelizmente, várias instâncias no decorrer do tempo apontam para o fato de que nosso viés cognitivo nos engana.

As estatísticas mostram que os investidores americanos têm quase 75% de seus investimentos em ativos dos EUA, apesar de os Estados Unidos serem responsáveis por apenas pouco mais de 35% dos mercados de capitais do mundo. (Fonte: J.P. Morgan Asset Management Guide to the Markets, 2019.)

No mesmo sentido, quem investe em renda fixa em mercados emergentes muitas vezes prefere investir em títulos privados e públicos dos países nos quais residem, com base na familiaridade e expectativa de compreender melhor os riscos de crédito e conseguir recuperar o principal mais lucro, apesar da volatilidade.

Essa tendência de investir no país de domicílio cria pelo menos três potenciais riscos aos portfólios dos clientes, que poderiam ser facilmente evitados quando reconhecidos:

1) Risco de concentração

O velho ditado diz: "Não coloque todos os ovos na mesma cesta". Apesar de isso poder ser aplicável a quase todas as coisas na vida, é especialmente importante em relação à estratégia de construção de portfólio. Ter uma superexposição àquilo que é próximo e familiar pode significar uma grande exposição a ativos fortemente correlacionados. Em outras palavras, grandes componentes do seu portfólio irão se mover todos juntos em uma única direção, o que pode se provar especialmente danoso se essa for uma direção negativa, e se não houver ativos seguros ou não correlacionados o suficiente para oferecer um alívio contra qualquer perda.

A concentração também se apresenta no risco de se ter poupanças (balanço patrimonial) sujeitas ao mesmo ambiente macro de risco das empresas operantes (criação de patrimônio). Quando ambientes econômicos negativos afetam um país, poupanças de investimento arduamente ganhas ficam sujeitas a volatilidade, ao mesmo tempo em que empresas operantes encontram dificuldades, muitas vezes quando o que se mais precisa é economizar. O risco de concentração tem ramificações impactantes, porque limita a capacidade de aproveitar novas oportunidades de negócios ou de sustentar um período desafiador no ambiente de mercado.

2) Risco de familiaridade

Tomar decisões baseadas em familiaridade pode se manifestar de diversas formas. Por exemplo, funcionários em empresas de tecnologia tendem a ter portfólios fortemente embasados em ações de tecnologia. Não há nada de errado em investir no que é familiar. Entretanto, é importante compreender que essa decisão — de ter investimentos do mesmo setor em que se trabalha — é uma decisão intencional, e essa decisão pode impactar seu futuro.

Vieses de familiaridade geográfica também são muito comuns. Se estamos muito familiarizados com um país ou região, tendemos a investir mais fortemente nesse local. Isso fica evidente quando olhamos para portfólios e os locais de residência dos investidores. O princípio fundamental desse viés é que uma empresa local que você conhece bem parece mais merecedora de crédito do que uma empresa estrangeira desconhecida. Entretanto, reconhecer o nome de uma empresa ou sua localização não torna o investimento mais seguro, isso é apenas uma impressão.

É importante separar o que parece arriscado do que é realmente arriscado. Uma boa abordagem é se aprofundar nos números. Ser digno de crédito decorre de dois fatores: a capacidade de pagar (fluxos de caixa, tamanho do endividamento, custos de manutenção de juros, etc.), e a vontade de fazê-lo.

3) Risco de volatilidade

Apesar de ser em graus variados, os mercados emergentes têm probabilidade de serem impactados pela volatilidade associada às fissuras no estado de direito. É importante levar esse fato em consideração quando os portfólios estão fortemente investidos em mercados emergentes que podem estar físicamente ou emocionalmente próximos do investidor.

Em mercados com tendência à volatilidade — tais como mercados emergentes — grandes perdas individuais em preços de renda fixa tendem a ocorrer de tempos em tempos, especialmente durante uma recessão ou períodos de agitação política e social. E as recuperações tendem a ser muito lentas, principalmente quando um país não tem uma estrutura justa para resolução de dívidas, como a falência, pela qual os credores podem executar os seus direitos e recuperar os ativos.

Além dos riscos de inadimplência e/ou reestruturação, temos inúmeras situações de "reapreçamento", em que a concentração na exposição criou drawdowns dolorosos (perdas mercado a mercado). Quando esses riscos de prejuízo se materializam, os investidores super expostos tendem a se retrair e a se manter longe desses mercados, que, por sua vez, pode gerar oportunidades perdidas, e nos piores casos, pode fazer com que os investidores vendam, quando deveriam estar investindo.

 

Encontrando opções para geração e preservação de capital, ao mesmo tempo em que se gerencia a volatilidade

 

Apesar dos riscos, a renda fixa dos mercados emergentes ofereceu resultados atraentes em termos ajustados ao risco (volatilidade) ao longo de sua história.¹ A questão é como atingir um resultado favorável nesse espaço.

Mercados emergentes podem oferecer taxas mais rápidas de crescimento econômico do que os países desenvolvidos, pois fatores como demografia, classe média em crescimento e o desenvolvimento da infraestrutura podem ajudar a gerar riqueza e empresas dinâmicas com potencial de crescimento significativo. Para aproveitar essas oportunidades enquanto se mitiga a volatilidade, acreditamos que a diversificação entre países, em parceria com um sólido processo de seleção de crédito, oferece resultados favoráveis.

A diversificação é o caminho. Para ilustrar visualmente a importância de se ter fontes diversificadas de retornos, veja abaixo:

Sharpe Ratio de CEMBI e Subíndices* vs. Drawdown Máx.**

*Sharpe Ratio: (Retorno anual – Taxa livre de risco)/Volatilidade anual; Taxa livre de risco = rendimento médio de 10 anos para o ano. Período: 2010–2019. ** Drawdown Máx.: retorno negativo máximo para o período de 12 meses contínuos. O desempenho passado não é garantia de resultados futuros.

Fonte: Bloomberg e J.P. Morgan, em 29 de novembro de 2019.

 

 

O gráfico ilustra o Sharpe Ratio do CEMBI (‘Corporate Emerging Market Bond Index’, índice de títulos corporativos de renda fixa de mercados emergentes) e subíndices selecionados. Como se pode ver, o índice mais amplo, assim como quase todos os subíndices, mostram retornos em excesso de volatilidade (i.e., Sharpe Ratio > 1). Entretanto, o CEMBI, índice que abrange diversos países, tem um drawdown mais baixo do que os componentes individuais dos países, refletindo um melhor perfil de volatilidade do grupo amplo de títulos corporativos de renda fixa de mercados emergentes, e que pode resultar em resultados excessivos semelhantes, se não melhores, do que qualquer um único país.

Estar ciente da tendência a se investir em seu país de origem é apenas mais um obstáculo a se superar ao formar uma estratégia de investimentos robusta. Apesar de não haver nada inerentemente errado com investir em países e setores que se conhece e se ama, uma abordagem global e diversificada à construção de portfólio pode ajudar os clientes a atingirem seus objetivos de investimento ao reduzir a concentração de fator de risco, construindo um portfólio potencialmente mais resiliente de maneira geral. 

¹ Emerging Market Corporates Sharpe Ratio 1.5 vs. U.S. HY 1.4, U.S. IG 1.3, S&P 500 0.9, em novembro de 2019. Fonte: J.P. Morgan Research.