Se você costuma manter uma quantia significativa em dinheiro, provavelmente já ouviu este conselho: a inflação corrói o valor do dinheiro ao longo do tempo. Investir em ações, títulos e private equity oferece potencial de crescimento muito maior. Ainda assim, se você prefere manter liquidez, há maneiras de fazer esse dinheiro trabalhar de forma mais eficiente e aumentar as chances de obter retornos.
Essas afirmações são convincentes, mas não levam em conta as necessidades e objetivos individuais de cada pessoa, que devem orientar tanto o valor mantido em caixa quanto a gestão do restante das finanças.
A resposta para “quanto dinheiro devo manter disponível?” provavelmente será diferente para você e para seu vizinho, mesmo que ambos tenham a mesma alocação. O essencial é o papel que esse dinheiro desempenha na sua vida, nas necessidades da sua família e nas suas aspirações para o futuro.
Todos deveriam analisar suas finanças sob essa ótica. A seguir, apresentamos três estudos de caso que ilustram essa abordagem1. Os exemplos são genéricos e hipotéticos, servindo apenas para fins ilustrativos. Esta informação não garante resultados ou sucesso futuro.
Estudos de caso: Três famílias
Vamos considerar três famílias com características básicas semelhantes: cada uma composta por um casal de 50 anos, dois filhos e um patrimônio líquido total de US$ 50 milhões (incluindo ações, títulos e dinheiro, mas excluindo imóveis e outros ativos reais). Deste total, US$ 35 milhões estão investidos em um portfólio equilibrado e US$ 15 milhões permanecem em caixa, equivalendo a 30% do patrimônio.
No entanto, as famílias têm prioridades e objetivos diferentes:
- Família Salinas: Acabou de vender sua empresa e tem vários compromissos de curto prazo.
- Família Wilson: É conservadora do ponto de vista fiscal e teme desmotivar os filhos.
- Família Grant: Pensa no futuro e deseja construir um legado para os descendentes e para a comunidade.
O melhor caminho para cada família é diferente, porque cada uma tem necessidades únicas.
Família Salinas: Compromissos de curto prazo
A venda da empresa trouxe uma alta carga tributária sobre o ganho: no próximo ano, terão que pagar US$ 9 milhões em impostos.
Também permitirá, finalmente, comprar a casa de veraneio desejada. Em dois anos, a família planeja investir US$ 4 milhões em uma propriedade à beira-mar e sabe que precisa de US$ 1 milhão por ano para manter seu padrão de vida.2
O que pode funcionar para eles?
Recursos líquidos
Está claro que a família Salinas precisa manter alta liquidez. Ao mesmo tempo, é interessante destinar US$ 2 milhões dos US$ 15 milhões em dinheiro para o portfólio de investimentos, ficando 99% financiada. Além disso, pode ser interessante investir os US$ 4 milhões reservados para a casa de veraneio em ativos de curto prazo.
Com base em nossa análise e na situação financeira atual, acreditamos que o portfólio equilibrado de US$ 37 milhões da família Salinas tem potencial para gerar o crescimento e a renda necessários para financiar o padrão de vida até os 90 anos, com nível de financiamento de 99%.3 Isso sugere que estarão ligeiramente abaixo do necessário, mas não de forma significativa. Nessas condições, talvez não tenham recursos para doações adicionais ou para deixar herança aos descendentes. É fundamental revisar periodicamente a estratégia de investimentos para garantir alinhamento com os objetivos e tolerância a risco, além de reavaliar a situação patrimonial. Também é importante trabalhar junto ao assessor para garantir que a alocação do portfólio continue atendendo às necessidades e objetivos de longo prazo.
Planejamento completo
Vender uma empresa com ganho substancial é um evento relevante, que deve levar a família a avaliar como está – e como deveria estar – gerenciando serviços financeiros essenciais, como pagamento de contas, contabilidade, acesso a crédito, educação da próxima geração, filantropia, manutenção de propriedades, seguros, investimentos e preparação de impostos, entre outros.
Vale também refletir: Temos as estruturas e os assessores necessários para nos apoiar ao longo da vida? O que queremos deixar para nossos filhos?
Um bom planejamento patrimonial é fundamental, assim como revisões periódicas para garantir que todos os planos e alocações continuem atendendo às necessidades e objetivos da família.
Família Wilson: Preocupação com os filhos
A família Wilson gasta cerca de US$ 750 mil por ano para manter seu padrão de vida. Sua principal preocupação são os filhos: “Não queremos que nosso dinheiro tire o propósito deles.” Por isso, não priorizam o crescimento do patrimônio nem a possibilidade de deixar uma herança maior.
Qual caminho pode funcionar para eles?
Planejamento completo
O primeiro passo é considerar todas as formas de ajudar os filhos a serem responsáveis e produtivos financeiramente.
Pode ser muito útil que os pais, junto com um assessor experiente, revisem como conversam com os filhos sobre valores e patrimônio familiar. Também devem avaliar as ações tomadas para ensinar sobre gestão financeira e investimentos.
Algumas medidas possíveis:
- Realizar reuniões familiares periódicas para tratar das finanças (com ou sem assessor).
- Criar ou ajustar trusts para os filhos, condicionando distribuições a critérios que incentivem produtividade.
- Designar um fiduciário corporativo para apoiar os filhos no orçamento, controle de gastos e investimentos.
- Destinar o que considerarem “riqueza excedente” à filantropia, em vez de transferir aos filhos.
- Criar um fundo filantrópico (donor-advised fund, DAF) junto com os filhos, ensinando gestão financeira e o valor de contribuir para a sociedade.
Disponibilidade financeira
Acreditamos que os US$ 15 milhões em liquidez são adequados por ora. Sugerimos avaliar a possibilidade de aplicar esse dinheiro em ativos de curto prazo. Quando os pais se sentirem mais confortáveis com a relação dos filhos com o patrimônio ou identificarem uma causa filantrópica, podem realocar parte dos recursos líquidos para investimentos de maior risco e potencial de crescimento.
Alocação de portfólio
Nossa análise indica que a família Wilson talvez não precise dos US$ 35 milhões atualmente alocados para financiar o padrão de vida nos próximos 40 anos. É possível que apenas US$ 28 milhões sejam necessários, dependendo da estratégia adotada.
Ou seja, se não fizerem mudanças, podem acabar deixando mais aos filhos do que imaginavam. A família deve conversar com os assessores sobre opções, incluindo reduzir o risco do portfólio e destinar excedentes para aumentar o padrão de vida, filantropia ou outros objetivos.
Família Grant: Construindo um legado
A família Grant gasta US$ 1,3 milhão por ano, pretende deixar US$ 10 milhões aos filhos e deseja destinar parte à filantropia.
Nossa análise sugere que essas aspirações dificilmente serão alcançadas com a composição atual do patrimônio, incluindo liquidez e portfólio equilibrado.
O que pode ser feito?
Planejamento completo
A necessidade mais imediata é ajustar as finanças para apoiar os objetivos.
Fatores a considerar:
- Aumentar o risco, tanto no portfólio quanto na gestão dos recursos líquidos.
- Ajustar metas, deixando menos aos filhos e/ou à filantropia.
- Buscar outras fontes de liquidez, como venda de casa de veraneio ou outros ativos reais.
- Reduzir o padrão de vida e o gasto anual.
É importante modelar financeiramente as opções até encontrar o caminho mais confortável. Entre as alternativas:
- Alcançar os objetivos aumentando a alocação em ativos de risco.
- Manter a alocação atual e cumprir metas de doação, mas reduzir significativamente os gastos.
- Permanecer como está, manter o padrão de gastos e aceitar que haverá menos para deixar aos filhos.
Como podemos ajudar
Embora cada família seja única, todas devem seguir passos semelhantes para um planejamento patrimonial sólido:
- Identificar metas específicas e intenções gerais.
- Modelar as probabilidades de diferentes caminhos para atingir essas metas.
- Implementar as decisões.
- Revisar os planos regularmente para garantir que as alocações estejam alinhadas aos objetivos.
A equipe do J.P. Morgan está à disposição para apoiar você e sua família em cada etapa desse processo.