Estratégia de investimento
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Em “O superciclo eleitoral de 2026 na América Latina: pragmatismo ou mais fragmentação?, defendemos a tese de uma inflexão à direita em toda a região. Com as eleições no Peru e na Colômbia já definidas, a atenção se volta agora para os resultados concretos: desta vez será, finalmente, diferente? A seguir, apresentamos uma prévia de nosso próximo artigo, que estará disponível em 26 de agosto.
Peru e Colômbia realizaram eleições em junho e, em ambos os casos, o resultado favoreceu a centro-direita; o Brasil vota em outubro. Desde o início de 2025, as 7 eleições presidenciais realizadas na América Latina levaram ao poder governos de centro-direita. Muitos desses candidatos fizeram campanha inspirados no modelo de Bukele, eleito em El Salvador, em resposta à preocupação dos eleitores com a criminalidade e a segurança — uma postura bastante alinhada à abordagem de linha-dura do governo Trump. Washington também definiu o pano de fundo geopolítico ao apoiar uma mudança de regime na Venezuela e reavivar a Doutrina Monroe, que moldou o contexto de todas as eleições do ciclo.
Nas próximas seções, analisamos o contexto criado pelos Estados Unidos, o problema do mandato político presente em todos os resultados, o que as eleições produziram em cada país e onde se encontram, a partir de agora, os principais riscos e oportunidades.
O cenário foi definido em Washington, não em Lima nem em Bogotá. A retomada da Doutrina Monroe voltou a vincular a política regional às drogas, à migração e à influência chinesa — e, sobretudo, à Venezuela. Após a captura de Nicolás Maduro pelas forças norte-americanas, Delcy Rodríguez foi nomeada presidente interina sob supervisão dos Estados Unidos. Em seguida, as sanções foram suspensas e deu-se início a um plano de aproximadamente US$ 100 bilhões para reativar o setor petrolífero.
Essa reafirmação da influência dos Estados Unidos coincidiu com uma mudança política na própria região, à medida que governos de centro-direita chegaram ao poder em rápida sucessão: Milei na Argentina, Noboa no Equador, a reeleição de Bukele em El Salvador, Kast no Chile, Fernández na Costa Rica e, por fim, Peru e Colômbia em junho de 2026. Apenas o Brasil ainda não votou.
O que une essa tendência não é apenas o momento em que ocorreu, mas também seu conteúdo. As bandeiras de campanha da nova centro-direita — e a forma como ela agora governa — apresentam uma uniformidade marcante. Em todos os países que votaram a segurança foi o tema dominante nas urnas durante todo o ciclo: criminalidade e violência lideraram as preocupações dos eleitores, e as plataformas vencedoras responderam com notável consistência — uma fórmula comum de ordem em primeiro lugar, mercados em seguida e maior proximidade com Washington.
A pergunta já não é se a centro-direita continuará vencendo eleições, mas se, desta vez, será diferente. Até agora, a resposta é complexa por causa da fragilidade dos mandatos. Em todas as disputas relevantes do ciclo, a margem de diferença entre os candidatos foi mínima, o que condiciona o que os vencedores de fato conseguem fazer quando chegam ao poder. O Chile é o exemplo mais claro: o presidente Kast iniciou o mandato com 46% de aprovação, mas a retirada dos subsídios aos combustíveis provocou uma alta superior a 30% nos custos de energia e lhe custou mais de 15 pontos de aprovação em poucas semanas. Com isso, seu principal projeto de lei enfrenta um Senado no qual o governo dispõe de uma maioria de apenas 26 a 24. Milei, na Argentina, seguiu trajetória semelhante, com queda da aprovação em meio à inflação e a escândalos de corrupção.
A mesma dinâmica se aplica diretamente às duas eleições que encerraram o ciclo.
Keiko Fujimori, de centro-direita, venceu em 7 de junho por uma margem de 0,22 ponto percentual. Ela toma posse em 28 de julho.
Fujimori encerrou cinco anos de governos de centro-esquerda com uma plataforma baseada em segurança, liberalização econômica e estabilidade institucional — em contraste direto com a agenda de seu adversário, que propunha aumento de impostos, nacionalização de recursos e uma nova Constituição. No entanto, a mudança mais relevante é estrutural: pela primeira vez desde 1990, o Peru volta a ter um Congresso bicameral, formado por um novo Senado de 60 cadeiras e pela atual Câmara dos Deputados, com 130 integrantes. Essa mudança é importante porque, desde 2016, seis dos nove presidentes foram destituídos com base em um critério pouco definido de “incapacidade moral”, que podia ser invocado por uma única casa legislativa. Exigir agora a aprovação das duas casas para a destituição elimina o desconto crônico associado ao risco de impeachment. A coalizão de Fujimori controla 30 das 60 cadeiras do Senado e 56 das 130 cadeiras da Câmara, o que lhe proporciona uma margem para governar que nenhum presidente peruano recente teve.
O cenário macroeconômico reforça ainda mais essa tese: os termos de troca estão no nível mais alto desde 1950; o superávit comercial chegou a US$ 34,6 bilhões em 2025, ou 10,1% do PIB; e atingiu o recorde de US$ 12,9 bilhões no primeiro trimestre de 2026. Ainda assim, a produção de cobre cresceu apenas cerca de 3%. O problema não são os preços, mas os atrasos na concessão de licenças e os conflitos sociais. O teste de curto prazo será saber se o Canon para el Pueblo — proposta de destinar diretamente às famílias das regiões mineradoras 40% do canon minero, isto é, da receita obtida pelo governo com a extração — conseguirá aprovação no Congresso e garantir a licença social que há anos impede o avanço de projetos, entre eles Tía María e Las Bambas, dois grandes projetos de cobre paralisados justamente por esse tipo de oposição local.
Abelardo de la Espriella, de centro-direita, venceu em 21 de junho por uma margem de 1,0 ponto percentual. Ele toma posse em 7 de agosto.
De la Espriella encerrou quatro anos de governo de Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda da Colômbia, com uma plataforma de reformas favoráveis ao mercado, investimento privado e uma postura mais firme contra os grupos armados. Uma margem de apenas um ponto significa que metade do país votou pela continuidade, o que condiciona tudo o que o novo governo poderá realizar. Para avaliar o alcance de sua agenda, nós a apresentamos por meio do framework T.I.G.R.E. — referência ao apelido do presidente e às iniciais, em inglês, de Trade, Investment, Growth, Retrenchment e Enforcement.
A distinção fundamental entre esses cinco eixos é que Comércio, Segurança e boa parte de Investimento podem ser impulsionados pelo Poder Executivo e avançar em questão de semanas, enquanto a Consolidação fiscal e a maior parte da agenda de Crescimento exigem votos no Congresso, difíceis de obter com um mandato respaldado por uma diferença de apenas um ponto percentual.
O setor de energia representa a oportunidade mais clara no curto prazo. A produção caiu cerca de 26% em relação ao pico de 2013–2014; a Colômbia perdeu a autossuficiência em gás no fim de 2024; e nenhum novo contrato de exploração foi concedido entre 2023 e março de 2025. A reprecificação aparecerá primeiro nos prêmios de risco, muito antes de qualquer aumento da produção. O alinhamento de De la Espriella com Washington também abre uma segunda dimensão: a Colômbia oferece capacidade de refino e experiência operacional que se combinam às reservas da Venezuela, uma sinergia até então bloqueada por sanções e fatores políticos. Os primeiros sinais são concretos: a Ecopetrol já busca autorização do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC, na sigla em inglês), órgão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos responsável pela administração das sanções norte-americanas; o gasoduto Antonio Ricaurte está sendo preparado para voltar a operar; o primeiro carregamento de gás liquefeito de petróleo (GLP) da Venezuela para a Colômbia foi concluído em março de 2026; e grandes empresas, entre elas BP, Shell, Eni e Repsol, assinaram novos acordos sob a reforma da legislação venezuelana de hidrocarbonetos.
Três sinais permitirão avaliar a governabilidade nos primeiros meses. O primeiro será a nomeação do ministro da Fazenda antes de 7 de agosto: uma escolha com credibilidade perante os mercados e apoio suprapartidário indicaria a formação de uma coalizão; a nomeação de um aliado próximo, por sua vez, sugeriria que o governo pretende governar por meio de medidas do Poder Executivo e deixar a agenda legislativa para mais adiante. Na área de segurança, será preciso observar se as primeiras ações contra o Exército de Libertação Nacional (ELN) permanecerão moderadas ou se escalarão a ponto de relegar a agenda econômica a segundo plano antes que ela ganhe impulso. Em setembro, a atenção se voltará para o orçamento: o apoio da oposição seria a primeira evidência concreta de governabilidade; um impasse confirmaria que a fragilidade do mandato é maior do que indica a margem eleitoral de um ponto percentual.
O Brasil é a questão em aberto de maior consequência para a região e chega à primeira rodada, em 4 de outubro, em situação de empate técnico. É provável que haja segundo turno em 25 de outubro entre o presidente Lula e o candidato de centro-direita Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ambos registram altos índices de rejeição, e o resultado dependerá de um grupo reduzido de indecisos. Lula enfrenta obstáculos em três frentes: um histórico fraco na área de segurança, principal preocupação dos eleitores; um escândalo bancário envolvendo o Banco Master, que voltou a colocar o Partido dos Trabalhadores sob escrutínio; e um déficit fiscal próximo de 8,5% do PIB, enquanto a legislação eleitoral impede novos estímulos. Flávio tem uma oportunidade real, mas carrega seus próprios problemas jurídicos: o julgamento em curso de seu pai por um suposto plano de assassinato mobiliza a base, mas afasta os independentes; e seu próprio caso da “rachadinha” — esquema de desvio no qual assessores teriam devolvido ao político parte de seus salários pagos pelo setor público — oferece ao campo de Lula uma contranarrativa sobre corrupção.
Independentemente do resultado, o mandato do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, vai até dezembro de 2028, protegendo a política monetária. Além disso, o Brasil continua entre os mercados emergentes com maior espaço para reduzir os juros: os preços de mercado precificam aproximadamente 100 pontos-base de cortes, mas há argumentos sólidos para o dobro disso.
O México, por sua vez, não realizará eleições até 2030, mas a revisão de 1º de julho do Acordo Estados Unidos–México–Canadá (USMCA, na sigla em inglês) abriu uma fase mais complexa para o comércio norte-americano. Washington decidiu não prorrogar o acordo, dando início a uma contagem regressiva de 10 anos durante a qual ele continuará em vigor, mas será submetido a reavaliações anuais. Assim, uma negociação antes pontual se transforma em um foco recorrente de pressão. A questão central é saber se o boom das exportações mexicanas — que alcançaram cerca de US$ 149 bilhões em produtos de tecnologia avançada destinados aos Estados Unidos em 2025 — reflete uma atividade manufatureira genuinamente norte-americana ou o redirecionamento de produtos de origem chinesa para evitar as tarifas sobre embarques diretos. A resposta será testada todos os anos. E o poder de pressão de Washington vai muito além do comércio: migração, segurança de fronteira e combate ao narcotráfico passam a fazer parte da mesma discussão anual.
Em suma, 2026 confirmou a direção da mudança, mas deixou em aberto a durabilidade desse movimento — e é nessa lacuna que agora se concentram as oportunidades e os riscos. Daqui em diante, a variável decisiva é a execução, e não o resultado eleitoral. De modo geral, as valuations e o carry elevado oferecem uma proteção relevante. Em nosso cenário-base, de um dólar norte-americano mais fraco ou oscilando dentro de uma faixa, as moedas da região provavelmente continuarão sustentadas. A região mudou de direção política; os próximos dois trimestres mostrarão em que medida essa mudança se traduzirá em políticas públicas e, em última instância, em crescimento.
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