Tecnologia e fintech
As empresas de tecnologia se consolidaram como motores-chave do private equity e de risco na América Latina, com os serviços financeiros no centro dessa transformação.
O setor de fintech se destaca não só pela inovação, mas por estar na interseção de alta demanda reprimida, rápida adoção digital e modelos de negócios escaláveis. Por anos, o acesso limitado a bancos e crédito freou o consumo, a criação de empresas e a produtividade. Hoje, essa lacuna está se fechando rapidamente: mais de 70% da população participa do sistema financeiro formal, contra 50% em 2017, impulsionado pelo crescimento de carteiras digitais, neobancos e plataformas de crédito alternativo. A penetração de smartphones e o acesso à internet permitiram que os serviços financeiros superassem a infraestrutura tradicional, reduzindo custos, ampliando cobertura e transformando os canais de distribuição. Sob a ótica de investimento, essa evolução é fundamental. Muitas plataformas são desenvolvidas sobre arquiteturas modernas e nativas em nuvem, facilitando a iteração de produtos, originação baseada em dados e venda cruzada entre pagamentos, crédito, poupança e seguros.
Esses fatores melhoram a rentabilidade e a alavancagem operacional à medida que crescem. Os investimentos confirmam: tecnologia da informação e serviços financeiros concentram a maior parte do capital de risco nos principais mercados da região. Em 2025, TI liderou no Brasil, Chile e Argentina, enquanto os serviços financeiros dominaram no México e Colômbia, mostrando a amplitude e profundidade das oportunidades digitais. Embora consumo e saúde continuem atraindo capital, o foco está em plataformas digitais e financeiras, que se beneficiam de efeitos de rede, uso de dados e altas margens incrementais. Para o private equity, isso se traduz em maior interesse por plataformas tecnológicas e fintechs mais consolidadas, com bases de clientes robustas, desempenho unitário sólido e trajetórias claras para a rentabilidade. Muitas operam em ecossistemas fragmentados, o que abre oportunidades para consolidação, otimização e expansão regional.
Com marcos regulatórios mais sólidos, mercados de capitais mais profundos e adoção digital crescente, o private equity está bem posicionado para liderar a próxima geração de empresas financeiras e impulsionar a produtividade e a transformação econômica na América Latina.
Transição energética e infraestrutura
A América Latina está entrando em uma fase decisiva para energia e infraestrutura, onde suas vantagens naturais e necessidades urgentes formam uma narrativa de investimento sólida. A região concentra cerca de metade das reservas mundiais de lítio, mais de um terço do cobre e da prata, e ativos relevantes em petróleo. Destaca-se também pela matriz energética: aproximadamente 60% da eletricidade vem de fontes renováveis, graças à abundância de energia hidrelétrica, solar e eólica. No entanto, grande parte da infraestrutura energética está obsoleta e as perdas na transmissão e distribuição superam as de mercados mais avançados. Muitas redes elétricas foram projetadas para outro contexto e hoje enfrentam desafios para se adaptar a tecnologias como geração solar distribuída, armazenamento em baterias e veículos elétricos.
Além disso, monopólios públicos e regulação lenta costumam atrasar investimentos essenciais para modernizar a infraestrutura e liberar seu potencial. Essa diferença entre potencial e realidade é onde surge a oportunidade para investidores. À medida que as cidades crescem e as indústrias se digitalizam, a demanda por infraestrutura moderna e confiável aumenta. Nesse cenário, tanto o private equity quanto o capital internacional desempenham um papel fundamental para fechar essa lacuna. Já há projetos de grande porte em andamento: é o caso do gasoduto de Vaca Muerta na Argentina, melhorias em redes elétricas e energias renováveis na Colômbia, e nova infraestrutura de gás no México e Guiana. Parceiros internacionais também são essenciais.
Em 2025, a agência japonesa JICA comprometeu um bilhão de dólares ao BID Invest para impulsionar investimentos privados e reduzir a lacuna de financiamento para o desenvolvimento sustentável na região. Esses esforços vão além da construção de novos ativos: buscam estabelecer as bases para a próxima etapa de crescimento e inovação. Com a transição energética acelerando, o private equity e os fundos de infraestrutura estão bem posicionados para liderar a transformação da América Latina e converter suas vantagens naturais em progresso econômico sustentável.
Compreendendo os riscos por trás da oportunidade
Um leque de oportunidades em expansão não significa necessariamente um cenário homogêneo, especialmente em uma região tão diversa quanto a América Latina. Embora temas como digitalização, infraestrutura e inclusão financeira sejam comuns em muitos países, as condições para investir em private equity variam consideravelmente. Marcos políticos e regulatórios, regimes fiscais e normas de mobilidade de capital diferem substancialmente, e a volatilidade cambial segue sendo uma constante na região.
Esses fatores impactam a estruturação de transações, decisões de financiamento e alternativas de saída, o que explica a divergência de resultados entre países, setores e grupos de investimento. Para os investidores, aproveitar o potencial de longo prazo dos mercados privados na América Latina exige mais do que identificar tendências atraentes: é preciso navegar com eficácia em um ambiente operacional complexo e heterogêneo. A dispersão de retornos é alta e se amplifica por diferenças em redes de originação, disciplina de análise e capacidades operacionais pós-investimento. Nesse contexto, a seleção de gestores com redes locais sólidas, acesso a oportunidades exclusivas e histórico comprovado de geração de valor operacional é fundamental. Aqueles com presença ativa e prolongada na região estão melhor posicionados para estruturar transações defensivas, gerenciar riscos e promover melhorias concretas nas empresas do portfólio. Na prática, o gestor ao qual se aloca capital pode ser tão determinante quanto o setor ou a temática escolhida.