Estratégia de investimento
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Contudo, olhando para 2026, há motivos para acreditar que uma nova oportunidade está se formando em uma região historicamente negligenciada. Uma combinação de transformações estruturais — internas e externas — está abrindo uma janela de oportunidade distinta dos ciclos anteriores. A transição global para economias digitais e sustentáveis elevou a relevância de minerais essenciais, energia e segurança alimentar, setores nos quais a América Latina apresenta vantagens claras. Paralelamente, as tensões geopolíticas e a reorganização das cadeias globais de suprimentos estão conduzindo a globalização a uma nova fase, marcada por blocos comerciais regionais, em que a lógica econômica passa a ser ponderada pelo alinhamento ideológico — refletindo a passagem das cadeias de suprimentos de offshoring (mercados estrangeiros) para nearshoring (países próximos) e friendshoring (países aliados).
Ao mesmo tempo, começam a aparecer indícios de um movimento do pêndulo político, da esquerda para o centro e centro-direita, que, se consolidado, pode resultar em maior previsibilidade política e fortalecimento institucional. Os novos governos demonstram foco crescente em aproveitar as oportunidades globais, em vez de apenas reagir a elas, e há um entendimento cada vez mais difundido de que o crescimento sustentável depende não só de recursos naturais, mas também de segurança, boa governança e capital humano.
Neste relatório, analisamos por que, desta vez, o cenário pode ser diferente para a América Latina. Para isso, examinamos a trajetória histórica da região, o contexto global que impulsiona novas oportunidades, os setores com maior potencial para capturar essa ascensão estratégica e as mudanças políticas e macroeconômicas fundamentais atualmente em curso.
A trajetória da América Latina é marcada por paradoxos. A região concentra mais de 40% das reservas globais de cobre, mais da metade das reservas conhecidas de lítio e extensas reservas de recursos agrícolas e energéticos. Países como Brasil, Argentina, Chile e Peru ocupam posições de destaque mundial em cadeias como soja, carne bovina, café, cobre e lítio. Apesar dessa abundância, a participação latino-americana no PIB mundial e no valor agregado da indústria manufatureira continua limitada — aproximadamente 7,1% e 7,55%, respectivamente.2
O fraco desempenho da região tem origem em uma combinação de instabilidade política, fragilidade fiscal, desigualdade e insegurança. A instabilidade no cenário político resultou em mudanças frequentes de políticas públicas, o que comprometeu o investimento de longo prazo. Déficits fiscais persistentes e políticas de gasto pró-cíclicas aumentaram a vulnerabilidade dos países a choques externos. A desigualdade continua sendo uma das mais altas do mundo, alimentando tensões sociais e dificultando a formação de uma classe média sólida. O legado colonial, a desigualdade estrutural e a convivência entre riqueza e exclusão criaram condições para que atores violentos se apropriassem de partes do Estado, convertendo a insegurança em um fator autorreforçado que influencia tanto a estabilidade política quanto os incentivos econômicos.
Nesse contexto, a instabilidade política e a desigualdade configuram os principais obstáculos. Segundo a Pesquisa de Confiança da OCDE, conduzida em 10 países da América Latina e do Caribe nos anos de 2023 e 2025, somente 35% da população afirma ter confiança alta ou moderada em seu governo nacional, enquanto cerca de metade (48%) declara ter pouca ou nenhuma confiança. Esse patamar de confiança é significativamente inferior à média observada nos países da OCDE, o que evidencia os desafios renitentes da região em termos de governança e credibilidade institucional. Paralelamente, a desigualdade segue entre as mais elevadas do mundo, com coeficiente de Gini médio de 0,46 na região, em comparação com 0,32 nos países da OCDE. Essa desigualdade persistente estimula a instabilidade social, enfraquece a coesão social e limita o desenvolvimento de uma classe média sólida.
As políticas fiscais pró-cíclicas, as elevadas cargas de dívida e o espaço fiscal limitado, atribuíveis em parte à luta permanente para superar a desigualdade, deixaram os países vulneráveis a choques externos. Em paralelo, a arrecadação fiscal fraca e as bases de receita estreitas limitam a capacidade dos governos de investir em educação, infraestrutura e tecnologia, que são fundamentais para aumentar a produtividade de longo prazo. Esse padrão resulta em subinvestimento crônico em capital humano e bens públicos, o que reduz a capacidade da região de aproveitar as oportunidades globais e impede que o crescimento alcance seu potencial máximo.
Os desequilíbrios fiscais podem ser enfrentados por meio de cortes de gastos ou do aumento da arrecadação de impostos. A forma mais eficiente de elevar a arrecadação não se limita a fechar brechas ou aumentar tributos sobre os contribuintes existentes, mas sim a ampliar a base tributária — especialmente por meio de políticas que incentivem investimentos e gerem empregos, aumentando assim o número de contribuintes. De forma crucial, a insegurança funciona como um imposto oculto sobre o crescimento. Segundo o BID, crime e violência custam à América Latina e ao Caribe cerca de 3,4% do PIB, o equivalente a 80% dos orçamentos de educação pública da região, o dobro do que se gasta em assistência social e 12 vezes os orçamentos combinados de P&D. Quase 47% desse custo advém de gastos das empresas privadas com segurança e mitigação, já que elas frequentemente pagam taxas de proteção, absorvem perdas por roubo e mantêm sistemas caros de vigilância e seguros. Esses encargos reduzem as margens de lucro, desestimulam investimentos e, em muitos casos, levam as empresas a repassar os custos aos consumidores, adiar os planos de expansão ou até abandonar mercados de alto risco.
Apesar desses desafios, vários fatores estão convergindo para criar uma nova narrativa. A dinâmica global está se transformando de maneira a favorecer diretamente os pontos fortes da América Latina. O foco crescente nas transições digital e verde estabelece bases para um crescimento mais sustentável, enquanto o perfil demográfico da região permanece favorável, com uma população jovem e em processo de urbanização. Além disso, surge maior opcionalidade na esfera política, com o pêndulo regional possivelmente se deslocando da esquerda para administrações mais inclinadas a reformas institucionais, melhor gestão macroeconômica ou, ao menos, maior participação do setor privado.
O mundo vive uma transformação intensa, movida pela dupla necessidade de digitalização e descarbonização. A implementação acelerada de inteligência artificial, veículos elétricos, energias renováveis e tecnologias avançadas de manufatura está gerando uma demanda inédita por minerais essenciais — como lítio, cobre, níquel, cobalto e elementos de terras raras. Os Estados Unidos, a União Europeia e a China estão focados em assegurar o acesso a esses minerais, enquanto a América Latina, com suas extensas reservas, encontra-se no centro dessa corrida global. Isso proporciona a governos e empresas da região uma influência sem precedentes em negociações comerciais e parcerias de investimento. O quanto a região conseguirá avançar na cadeia de valor — incluindo processamento, refino e até fabricação de baterias — determinará a parcela da renda econômica que poderá capturar.
Além dos minerais críticos, a América Latina pode desempenhar papel central na revolução da energia verde. A região tem uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com energias renováveis representando 60% da geração. O Brasil é líder em energia eólica e hidrelétrica, enquanto o Chile é potência solar. A região também está atraindo financiamento verde — emissores locais captaram mais de US$ 164 bilhões em títulos verdes e sustentáveis entre 2014 e 2024.5 Os países investem na modernização de redes elétricas, armazenamento e interconexões transfronteiriças para facilitar a transição energética.
A América Latina e o Caribe continuam sendo atores-chave nos mercados mundiais de petróleo e combustíveis fósseis, aproveitando reservas substanciais e um crescimento dinâmico entre vários produtores importantes. A Venezuela possui as maiores reservas provadas de petróleo do mundo — cerca de 303 bilhões de barris — embora a produção tenha diminuído nos últimos anos devido à deterioração da infraestrutura, falta de investimento e sanções internacionais. No entanto, declarações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mostrando abertura para uma nova participação de empresas petrolíferas americanas, reacenderam o debate sobre possíveis investimentos e recuperação da capacidade no setor petrolífero venezuelano. Embora compartilhemos o renovado otimismo em torno do setor petrolífero da Venezuela, consideramos que qualquer recuperação significativa na produção e investimento provavelmente será um processo gradual. Os desafios estruturais e a necessidade de mudanças sustentadas nas políticas implicam que os impactos relevantes podem se materializar a longo prazo.
O Brasil se consolidou como o maior produtor de petróleo da região e agora está entre os dez principais do mundo, com uma produção que superou os 4 milhões de barris diários no final de 2025, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). O bloco Stabroek em águas profundas da Guiana transformou o país em um importante exportador de energia, com uma produção que se multiplicou quase por dez desde 2020 e se espera que supere 1 milhão de barris diários até 2027, à medida que novos projetos entrarem em operação. Na Argentina, a formação de xisto Vaca Muerta reverteu anos de declínio, e o desenvolvimento não convencional agora impulsiona a maior parte da produção, que se projeta alcançar 810.000 barris diários. Outros países, como México e Colômbia, continuam contribuindo para a base de combustíveis fósseis da região, e a Colômbia também está entre os principais exportadores de carvão do mundo.6
Em conjunto, Brasil, Guiana e Argentina representaram cerca de 28% da produção mundial de petróleo em 2025, o que destaca a crescente presença da América Latina e do Caribe nos mercados energéticos globais. Essa expansão se apoia em forte investimento em desenvolvimentos offshore, produção de xisto e infraestrutura de exportação, posicionando a região como um fornecedor fundamental no cenário energético mundial em transformação.7
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que a demanda global por alimentos pode crescer entre 59% e 98% até 2050, indicando um aumento expressivo na procura por alimentos nas próximas três décadas, e destacando a América Latina como o celeiro do mundo. De modo geral, a região é responsável por 16% do total das exportações globais de produtos agrícolas e alimentícios, detendo a maior participação nas exportações agrícolas líquidas do planeta.8
Além disso, a América Latina é uma das poucas regiões do mundo com grandes recursos de terras agrícolas ainda não exploradas, contabilizando mais de 5 milhões de quilômetros quadrados de terras aráveis, 23% das florestas mundiais e entre 60% e 70% de todas as formas de vida existentes na Terra. A região recebe 29% da precipitação global e concentra cerca de 30% dos recursos hídricos renováveis do planeta.9 Graças a essa abundância de recursos naturais, a América Latina tende a continuar desempenhando um papel central na produção e exportação de alimentos mundialmente, com destaque para o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai, atualmente líderes na produção de soja, carne bovina, milho e açúcar. Acordos comerciais e avanços logísticos estão abrindo novos mercados na Ásia e no Oriente Médio, estimulando a demanda interna por investimentos no setor, sobretudo com o crescimento do acesso e da adoção de tecnologias modernas.
A pandemia de covid, as tensões comerciais entre Estados Unidos e China e a guerra na Ucrânia evidenciaram as fragilidades das cadeias de suprimentos globais. Atualmente, as empresas priorizam resiliência, segurança, proximidade geográfica e alinhamento ideológico, em vez de apenas buscar a otimização de margens. Isso marca a evolução do offshoring para o conceito atual de friendshoring.
A vantagem da América Latina vai além de seus recursos naturais e localização geográfica, englobando também a demografia favorável e o acesso cada vez maior da população. A idade mediana na América Latina é de 31,3 anos, comparada a 39,6 na China e 42,5 na Europa.10 Esse “dividendo demográfico” representa uma força de trabalho em expansão e uma base de consumidores crescente nas próximas décadas. Uma população mais jovem também tende a ter maior interesse por inovação e disrupção. Como resultado, a América Latina se tornou um dos mercados de capital de risco que mais cresce no mundo, com mais de US$ 15 bilhões investidos em 2024.11 Serviços bancários móveis, fintechs e comércio eletrônico estão se expandindo rapidamente. Segundo o Banco Mundial, a utilização da internet na região atingiu 82%, em comparação com 49% de uma década atrás. Brasil e México estão entre os maiores mercados de fintechs da região em número de startups e investimentos. Segundo o IV Relatório Fintech do BID e Finnovist, o ecossistema fintech na América Latina e Caribe cresceu 340% entre 2017 e 2023.
Após um 2025 surpreendentemente resiliente, com crescimento do PIB da América Latina previsto em 2,3% apesar das guerras comerciais e da instabilidade política, o consenso projeta um crescimento regional de 2,1% para 2026, com variações entre os países. Espera-se que México e Brasil cresçam 1,3% e 1,7%, respectivamente. O México deve acelerar em relação ao crescimento próximo de zero registrado em 2025, enquanto o Brasil deve consolidar um crescimento abaixo da tendência, devido à desaceleração do consumo. Chile e Peru devem registrar crescimento de 2,2% e 2,9%, respectivamente, apoiados na resiliência do consumo interno e em termos de troca fortes no setor de mineração. A Argentina, após uma recuperação significativa do PIB em 2025, deverá desacelerar para 3,1% de crescimento, enquanto a Colômbia deve apresentar apenas uma leve aceleração, já que o estímulo fiscal pré-eleitoral é em grande parte compensado pela redução dos investimentos privados.12
Em consonância com a leve desaceleração do crescimento regional, as pressões inflacionárias parecem ter atingido seu pico. A inflação na região está se estabilizando, com a maioria dos países projetando taxas entre 2% e 5%,13 dentro das metas da maioria dos bancos centrais, embora mais próximas do limite superior. Brasil e México conseguiram ancorar as expectativas inflacionárias por meio de ações confiáveis de seus bancos centrais, enquanto a Colômbia ainda enfrenta inflação elevada em decorrência de desequilíbrios estruturais. A Argentina, com medidas econômicas drásticas, conseguiu uma recuperação expressiva, reduzindo a inflação aos níveis de 2018, após atingir quase 290% em 2024.14 Exportadores de commodities na região se beneficiam de termos de troca mais favoráveis, ajudando a compensar a inflação proveniente de importações de alimentos e energia. O consenso indica que a inflação regional deve se situar em torno de 3,7% em 2026, impulsionada pelo arrocho monetário realizado anteriormente e pelo retorno das expectativas de inflação a patamares mais estáveis.
Os bancos centrais da região, em geral, têm se antecipado às tendências, implementando o arrocho monetário no início e, posteriormente, iniciando um ciclo gradual de afrouxamento à medida que as expectativas de inflação se estabilizam. Em 2025, a maioria dos bancos centrais regionais continuou reduzindo as taxas de juros. No entanto, no Brasil, preocupações fiscais e a dificuldade de manter a inflação ancorada mantiveram a política monetária restritiva, levando o Banco Central a aumentar a taxa em 275 pontos-base em 2025.15 Para 2026, o consenso prevê apenas alguns cortes restantes, com o Brasil à frente, alcançando seus pares no ciclo de redução de juros, com quase 250 pontos-base de flexibilização.16 O mercado não antecipa cortes adicionais na Colômbia e no Peru, restando apenas mais um corte no Chile.
No entanto, o aspecto mais relevante a ser acompanhado em 2026 na América Latina não será tanto o desempenho macroeconômico, mas sim se as expectativas de mudança no cenário político serão confirmadas. A palavra-chave é opcionalidade.
2026 será um ano decisivo para a política latino-americana, com eleições em Costa Rica, Brasil, Peru e Colômbia, após um calendário eleitoral intenso em 2025 em Chile, Equador, Bolívia e Argentina. O ano já começou com força, e a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela marcou um ponto de inflexão para um dos regimes autoritários mais duradouros da região.
A América Latina vive um movimento claro em direção a lideranças mais centristas e pragmáticas, reflexo do cansaço dos eleitores com o populismo e anos de instabilidade macroeconômica, impulsionado por uma demanda crescente por estabilidade, segurança e crescimento.
Embora a Argentina não tenha sido o primeiro país da região a migrar da esquerda para a direita, ela provavelmente se tornou o principal exemplo desse movimento. Depois de quase 50 anos de desequilíbrios econômicos persistentes e crises financeiras, o país passou duas décadas sob governos predominantemente peronistas e de esquerda, caracterizados por forte intervenção estatal, controle de capitais e políticas fiscais expansionistas. No final de 2023, a inflação havia disparado para mais de 200% ao ano, as reservas estavam praticamente esgotadas e a confiança dos investidores encontrava-se muito baixa. A eleição de Javier Milei em 2023 marcou uma mudança política e econômica significativa. Sua agenda de reformas radicais — incluindo redução dos gastos públicos e subsídios, liberalização parcial da taxa de câmbio e implementação do regime RIGI para grandes investimentos — ajudou a reposicionar a Argentina no radar dos investidores internacionais. Como resultado, a inflação começou a moderar e a sustentabilidade fiscal passou a parecer possível, com os mercados internacionais reagindo positivamente e uma linha de crédito de US$ 20 bilhões sendo oferecida pelo governo dos EUA.
Curiosamente, o primeiro país da região a se mover da esquerda para a direita e se manter nessa posição foi o Equador. Por mais de uma década, o Equador foi governado por administrações populistas de esquerda, principalmente sob Rafael Correa. As políticas de Correa inicialmente contribuíram para a redução da pobreza e da desigualdade, mas acabaram gerando desequilíbrios fiscais e prejudicando o ambiente de investimento. Seu sucessor, Lenín Moreno, começou como aliado de Correa, mas gradualmente se aproximou do centro político, enquanto a presidência de Guillermo Lasso marcou uma clara transição para políticas mais favoráveis ao mercado. Desafios políticos levaram Lasso a dissolver a Assembleia Nacional e convocar eleições antecipadas, que, no final de 2023, resultaram na eleição de Daniel Noboa, um jovem empresário de centro-direita. A gestão pragmática e orientada ao mercado de Noboa tem focado em restaurar a segurança, melhorar o ambiente de investimentos e dar continuidade às reformas fiscais. Apesar da persistente insegurança, os mercados internacionais retomaram a confiança no Equador, refletida na forte redução dos spreads soberanos.
Em 2025, tanto a Bolívia quanto o Chile evidenciaram a oscilação do pêndulo político na região. Na Bolívia, as eleições encerraram quase 20 anos de governos de esquerda, levando Rodrigo Paz, centrista/centro-direita, à presidência. Sua campanha destacou reformas graduais e pró-mercado, fortalecimento das relações com os EUA e uma abordagem mais favorável aos negócios do que a de seus antecessores, Evo Morales e Luis Arce. Anos de estagnação econômica, desequilíbrios fiscais e alegações de corrupção abriram caminho para essa mudança política. O Chile, tradicionalmente visto como uma das democracias mais estáveis da América Latina, passou por uma onda de agitação social em 2019, que resultou na eleição de Gabriel Boric, um jovem de esquerda, em 2021. As promessas de Boric de implementar reformas sociais e um novo contrato social enfrentaram obstáculos como baixo crescimento econômico, fraca geração de empregos e aumento da criminalidade. Em dezembro de 2025, os eleitores chilenos elegeram José Antonio Kast, líder do Partido Republicano, no segundo turno contra Jeannette Jara, do Partido Comunista. A vitória de Kast foi a mais expressiva da direita desde o retorno à democracia em 1990, com o eleitorado priorizando segurança, controle da imigração e estabilidade econômica, em detrimento da continuidade da agenda de esquerda anterior. Entre os principais desafios de Kast estão a simplificação da burocracia chilena para atrair investimentos produtivos, tanto nacionais quanto estrangeiros, e o equilíbrio das finanças públicas por meio da redução do tamanho do Estado.
Embora não tenha ocorrido pelos meios tradicionais, após doze anos de ditadura, a Venezuela está à beira de sua própria transformação política. Forças dos EUA realizaram uma operação militar no país, capturando Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, que agora enfrentam acusações de narcotráfico e armas em tribunais americanos. No período imediato, Delcy Rodríguez — ex-vice-presidente — foi nomeada líder interina. Internamente, a situação segue tensa, mas relativamente estável. Os EUA manifestaram intenção de desempenhar papel relevante na transição venezuelana, especialmente no setor petrolífero. Poucos dias após a captura, o presidente Donald Trump anunciou que as autoridades interinas transfeririam entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo sancionado para os EUA, para venda a preço de mercado, com os recursos geridos pelo governo americano em benefício dos venezuelanos e dos americanos. Esses acontecimentos indicam que o foco imediato da transição está na monetização dos ativos petrolíferos da Venezuela, com cooperação nos rendimentos do petróleo e supervisão do setor energético como elementos centrais da estratégia interina — o que pode ter prioridade sobre reformas políticas no curto prazo.
Nas últimas duas décadas, o cenário político e econômico do Brasil alternou-se entre governos de esquerda e administrações orientadas para o mercado. O Partido dos Trabalhadores (PT), sob Lula e Rousseff, ampliou os programas sociais e priorizou um modelo de desenvolvimento liderado pelo Estado, mas isso também resultou em aumento do déficit fiscal e maior intervenção estatal, gerando uma crise de confiança. Os governos de Temer e Bolsonaro, por sua vez, implementaram políticas pró-mercado, como a reforma da previdência, privatizações, desregulamentação e a concessão de independência ao Banco Central, contribuindo para restaurar parte da confiança dos investidores e estabilizar as finanças públicas. No entanto, problemas persistentes, como desigualdade social e polarização política, resultaram no retorno do PT ao poder em 2022. Sob Lula, o aumento dos gastos e da intervenção estatal elevou o déficit fiscal e provocou frustração diante da fragilidade econômica, da insegurança e das relações tensas com os EUA. Com as eleições de 2026 se aproximando, Lula enfrenta índices de aprovação mais baixos e uma concorrência crescente de líderes de direita, como Tarcisio de Freitas e Flávio Bolsonaro. O ambiente político permanece altamente incerto, com riscos de fragmentação dentro da direita e potencial para maior volatilidade.
A Colômbia ingressou mais tarde na “onda rosa” da América Latina, elegendo Gustavo Petro como seu primeiro presidente de esquerda em 2022. Sua campanha foi centrada na justiça social e na reforma, com o objetivo de reduzir a desigualdade e se distanciar das políticas macroeconômicas conservadoras. No entanto, o governo de Petro tem enfrentado dificuldades para aprovar reformas significativas, em razão do apoio limitado no Congresso e da fragmentação política existente. Embora o crescimento econômico tenha se mantido constante, os fundamentos subjacentes mostraram sinais de enfraquecimento, com investimentos paralisados e inflação persistentemente alta. O estilo confrontador de Petro, somado aos frequentes embates com o Congresso e a uma série de alegações de corrupção, afetou negativamente a confiança da população. Seus índices de aprovação caíram de cerca de 50% após a eleição de 2022 para a faixa dos 20%, enquanto a desaprovação se aproximou de 60%. Com as próximas eleições se aproximando, o descontentamento social e econômico tende a aumentar, e o eleitorado tradicionalmente conservador pode optar por uma mudança em direção ao centro ou à direita, especialmente se os partidos de oposição conseguirem se unir em torno de um candidato capaz de desafiar a base eleitoral de Petro.
A intervenção dos EUA na Venezuela e a destituição de Maduro podem ter efeitos importantes no cenário político colombiano. Primeiro, a operação evidencia o novo foco dos EUA em segurança regional e combate ao narcotráfico, o que deve aumentar a pressão sobre a Colômbia — vizinha da Venezuela e aliada estratégica dos EUA — para mostrar resultados no combate às drogas e na segurança de fronteira.
Segundo, a instabilidade venezuelana pode intensificar preocupações dos eleitores colombianos com segurança, migração e riscos de governos de esquerda, especialmente diante dos desafios de polarização política e dificuldades econômicas sob Petro.
Por fim, a postura firme dos EUA pode fortalecer a oposição de centro-direita e conservadora na Colômbia, que pode usar o temor de instabilidade regional para mobilizar apoio por uma mudança de rumo e afastamento da agenda esquerdista de Petro. Em resumo, os eventos na Venezuela devem reforçar a demanda por liderança pragmática e focada em segurança na Colômbia, podendo inclinar o eleitorado para o centro ou a direita, caso a oposição se una em torno de um candidato viável.
A América Latina encontra-se em uma encruzilhada. A combinação da crescente demanda global por recursos estratégicos, a tendência de moderação política e o fortalecimento institucional, junto com as vantagens demográficas e geográficas da região, está criando uma oportunidade que se diferencia significativamente dos ciclos anteriores. No entanto, isso não acontece sem riscos. Investimentos precisam considerar possíveis mudanças de governo e eventuais reversões de políticas, enquanto o aumento das tensões comerciais provoca volatilidade nas moedas locais. Além disso, operar em áreas com presença militar ativa ou altos riscos de segurança requer seguros reforçados, logística protegida e planos de contingência para interrupções potenciais. Tudo isso depende da estabilidade dos acordos comerciais, sejam bilaterais ou multilaterais, que — como demonstrado recentemente — não podem ser dados como garantidos. Por fim, os investidores não podem ignorar os gargalos de infraestrutura e a necessidade de investimentos contínuos em portos, estradas e conectividade digital. Ainda assim, há esperança de que a região aproveite a conjuntura global atual e transforme em realidade uma promessa que historicamente ficou aquém de seu potencial. Dividida entre potencial e pressão, a região mantém-nos otimistas diante das escolhas que se apresentam.
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