Embora a Argentina não tenha sido o primeiro país da região a migrar da esquerda para a direita, ela provavelmente se tornou o principal exemplo desse movimento. Depois de quase 50 anos de desequilíbrios econômicos persistentes e crises financeiras, o país passou duas décadas sob governos predominantemente peronistas e de esquerda, caracterizados por forte intervenção estatal, controle de capitais e políticas fiscais expansionistas. No final de 2023, a inflação havia disparado para mais de 200% ao ano, as reservas estavam praticamente esgotadas e a confiança dos investidores encontrava-se muito baixa. A eleição de Javier Milei em 2023 marcou uma mudança política e econômica significativa. Sua agenda de reformas radicais — incluindo redução dos gastos públicos e subsídios, liberalização parcial da taxa de câmbio e implementação do regime RIGI para grandes investimentos — ajudou a reposicionar a Argentina no radar dos investidores internacionais. Como resultado, a inflação começou a moderar e a sustentabilidade fiscal passou a parecer possível, com os mercados internacionais reagindo positivamente e uma linha de crédito de US$ 20 bilhões sendo oferecida pelo governo dos EUA.
Curiosamente, o primeiro país da região a se mover da esquerda para a direita e se manter nessa posição foi o Equador. Por mais de uma década, o Equador foi governado por administrações populistas de esquerda, principalmente sob Rafael Correa. As políticas de Correa inicialmente contribuíram para a redução da pobreza e da desigualdade, mas acabaram gerando desequilíbrios fiscais e prejudicando o ambiente de investimento. Seu sucessor, Lenín Moreno, começou como aliado de Correa, mas gradualmente se aproximou do centro político, enquanto a presidência de Guillermo Lasso marcou uma clara transição para políticas mais favoráveis ao mercado. Desafios políticos levaram Lasso a dissolver a Assembleia Nacional e convocar eleições antecipadas, que, no final de 2023, resultaram na eleição de Daniel Noboa, um jovem empresário de centro-direita. A gestão pragmática e orientada ao mercado de Noboa tem focado em restaurar a segurança, melhorar o ambiente de investimentos e dar continuidade às reformas fiscais. Apesar da persistente insegurança, os mercados internacionais retomaram a confiança no Equador, refletida na forte redução dos spreads soberanos.
Em 2025, tanto a Bolívia quanto o Chile evidenciaram a oscilação do pêndulo político na região. Na Bolívia, as eleições encerraram quase 20 anos de governos de esquerda, levando Rodrigo Paz, centrista/centro-direita, à presidência. Sua campanha destacou reformas graduais e pró-mercado, fortalecimento das relações com os EUA e uma abordagem mais favorável aos negócios do que a de seus antecessores, Evo Morales e Luis Arce. Anos de estagnação econômica, desequilíbrios fiscais e alegações de corrupção abriram caminho para essa mudança política. O Chile, tradicionalmente visto como uma das democracias mais estáveis da América Latina, passou por uma onda de agitação social em 2019, que resultou na eleição de Gabriel Boric, um jovem de esquerda, em 2021. As promessas de Boric de implementar reformas sociais e um novo contrato social enfrentaram obstáculos como baixo crescimento econômico, fraca geração de empregos e aumento da criminalidade. Em dezembro de 2025, os eleitores chilenos elegeram José Antonio Kast, líder do Partido Republicano, no segundo turno contra Jeannette Jara, do Partido Comunista. A vitória de Kast foi a mais expressiva da direita desde o retorno à democracia em 1990, com o eleitorado priorizando segurança, controle da imigração e estabilidade econômica, em detrimento da continuidade da agenda de esquerda anterior. Entre os principais desafios de Kast estão a simplificação da burocracia chilena para atrair investimentos produtivos, tanto nacionais quanto estrangeiros, e o equilíbrio das finanças públicas por meio da redução do tamanho do Estado.
Embora não tenha ocorrido pelos meios tradicionais, após doze anos de ditadura, a Venezuela está à beira de sua própria transformação política. Forças dos EUA realizaram uma operação militar no país, capturando Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, que agora enfrentam acusações de narcotráfico e armas em tribunais americanos. No período imediato, Delcy Rodríguez — ex-vice-presidente — foi nomeada líder interina. Internamente, a situação segue tensa, mas relativamente estável. Os EUA manifestaram intenção de desempenhar papel relevante na transição venezuelana, especialmente no setor petrolífero. Poucos dias após a captura, o presidente Donald Trump anunciou que as autoridades interinas transfeririam entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo sancionado para os EUA, para venda a preço de mercado, com os recursos geridos pelo governo americano em benefício dos venezuelanos e dos americanos. Esses acontecimentos indicam que o foco imediato da transição está na monetização dos ativos petrolíferos da Venezuela, com cooperação nos rendimentos do petróleo e supervisão do setor energético como elementos centrais da estratégia interina — o que pode ter prioridade sobre reformas políticas no curto prazo.
Nas últimas duas décadas, o cenário político e econômico do Brasil alternou-se entre governos de esquerda e administrações orientadas para o mercado. O Partido dos Trabalhadores (PT), sob Lula e Rousseff, ampliou os programas sociais e priorizou um modelo de desenvolvimento liderado pelo Estado, mas isso também resultou em aumento do déficit fiscal e maior intervenção estatal, gerando uma crise de confiança. Os governos de Temer e Bolsonaro, por sua vez, implementaram políticas pró-mercado, como a reforma da previdência, privatizações, desregulamentação e a concessão de independência ao Banco Central, contribuindo para restaurar parte da confiança dos investidores e estabilizar as finanças públicas. No entanto, problemas persistentes, como desigualdade social e polarização política, resultaram no retorno do PT ao poder em 2022. Sob Lula, o aumento dos gastos e da intervenção estatal elevou o déficit fiscal e provocou frustração diante da fragilidade econômica, da insegurança e das relações tensas com os EUA. Com as eleições de 2026 se aproximando, Lula enfrenta índices de aprovação mais baixos e uma concorrência crescente de líderes de direita, como Tarcisio de Freitas e Flávio Bolsonaro. O ambiente político permanece altamente incerto, com riscos de fragmentação dentro da direita e potencial para maior volatilidade.
A Colômbia ingressou mais tarde na “onda rosa” da América Latina, elegendo Gustavo Petro como seu primeiro presidente de esquerda em 2022. Sua campanha foi centrada na justiça social e na reforma, com o objetivo de reduzir a desigualdade e se distanciar das políticas macroeconômicas conservadoras. No entanto, o governo de Petro tem enfrentado dificuldades para aprovar reformas significativas, em razão do apoio limitado no Congresso e da fragmentação política existente. Embora o crescimento econômico tenha se mantido constante, os fundamentos subjacentes mostraram sinais de enfraquecimento, com investimentos paralisados e inflação persistentemente alta. O estilo confrontador de Petro, somado aos frequentes embates com o Congresso e a uma série de alegações de corrupção, afetou negativamente a confiança da população. Seus índices de aprovação caíram de cerca de 50% após a eleição de 2022 para a faixa dos 20%, enquanto a desaprovação se aproximou de 60%. Com as próximas eleições se aproximando, o descontentamento social e econômico tende a aumentar, e o eleitorado tradicionalmente conservador pode optar por uma mudança em direção ao centro ou à direita, especialmente se os partidos de oposição conseguirem se unir em torno de um candidato capaz de desafiar a base eleitoral de Petro.
Quais os impactos dos acontecimentos na Venezuela para as eleições na Colômbia?
A intervenção dos EUA na Venezuela e a destituição de Maduro podem ter efeitos importantes no cenário político colombiano. Primeiro, a operação evidencia o novo foco dos EUA em segurança regional e combate ao narcotráfico, o que deve aumentar a pressão sobre a Colômbia — vizinha da Venezuela e aliada estratégica dos EUA — para mostrar resultados no combate às drogas e na segurança de fronteira.
Segundo, a instabilidade venezuelana pode intensificar preocupações dos eleitores colombianos com segurança, migração e riscos de governos de esquerda, especialmente diante dos desafios de polarização política e dificuldades econômicas sob Petro.
Por fim, a postura firme dos EUA pode fortalecer a oposição de centro-direita e conservadora na Colômbia, que pode usar o temor de instabilidade regional para mobilizar apoio por uma mudança de rumo e afastamento da agenda esquerdista de Petro. Em resumo, os eventos na Venezuela devem reforçar a demanda por liderança pragmática e focada em segurança na Colômbia, podendo inclinar o eleitorado para o centro ou a direita, caso a oposição se una em torno de um candidato viável.