Estratégia de investimento
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A segurança cibernética já foi uma preocupação de nicho na área de TI. Hoje, é um desafio substancial que molda a era digital moderna.
Em setores como finanças, saúde e governo, a proteção de dados tornou-se uma prioridade máxima. À medida que a infraestrutura empresarial depende cada vez mais de sistemas baseados em nuvem, os ataques cibernéticos proliferam, tornando-se mais complexos e frequentes. Um relatório do FMI aponta que os incidentes maliciosos quase dobraram em relação ao período pré-pandemia, enquanto a pesquisa global sobre perspectivas de segurança cibernética do Fórum Econômico Mundial indiciou que 77% das organizações registraram aumento nas fraudes cibernéticas no último ano.
A América Latina destaca-se como uma região em que esse risco é particularmente agudo. A pesquisa do Fórum Econômico Mundial revela que 42% das empresas da região não confiam na preparação de seus países para o mundo digital — um número significativamente maior que o de empresas africanas (36%) ou europeias e norte-americanas (15%). Essa divergência é crucial, pois regiões com baixos níveis de investimento enfrentam riscos econômicos e sistêmicos desproporcionais. Para a América Latina, essa diferença acentuada significa maior vulnerabilidade a ataques cibernéticos. Naturalmente, existe uma necessidade urgente de fortalecer a resiliência geral conforme a digitalização se acelera.
As ameaças aumentam conforme empresas e governos migram seus serviços para o ambiente online e passam a usar novas tecnologias, como computação em nuvem e inteligência artificial, para otimizar as operações. Essa transição digital facilita o trabalho dos hackers para explorar vulnerabilidades e encontrar brechas de segurança.
Ao mesmo tempo, as tensões globais fazem com que os países adotem a guerra cibernética como parte de estratégias geopolíticas mais amplas. Os criminosos também estão usando ferramentas mais inteligentes e intuitivas para engendrar golpes e ataques mais convincentes. Todas essas mudanças tornaram mais difícil para as organizações manterem a segurança dos sistemas.
Com uma regulação de dados significativamente mais frágil que nos mercados desenvolvidos, a América Latina enfrenta maior exposição a ameaças cibernéticas. A cobertura da mídia global costuma se concentrar em incidentes nos EUA e na Europa, mas, em segundo plano, a América Latina vem se tornando, de forma silenciosa, uma das regiões mais visadas do mundo.
Com a adoção digital acelerando mais rapidamente que a capacidade de segurança institucional, o Banco Mundial identifica a América Latina e o Caribe como as regiões de crescimento mais rápido em termos de incidentes cibernéticos divulgados. Os ataques aumentaram cerca de 25% na última década.
Um estudo recente da Cybersecurity Economics for Emerging Markets destaca alguns dos motivos para esse aumento, apontando a disparidade entre o investimento em segurança cibernética em países em desenvolvimento e em países desenvolvidos. Na Índia e no México, por exemplo, o gasto per capita é de apenas US$ 1, comparado a US$ 30 nos Estados Unidos e no Canadá. Além disso, os Estados Unidos investem 16 vezes mais em segurança cibernética do que toda a região da América Latina e do Caribe, o que destaca a necessidade urgente de aumentar os gastos.
Segundo o BID, embora a maioria dos países da América Latina tem estratégias nacionais de segurança cibernética, apenas 13 têm a capacidade institucional, os recursos ou os mecanismos de coordenação necessários para implementá-las com eficiência. Além disso, apenas nove países estão equipados para proteger infraestruturas básicas, como sistemas de energia, portos, hospitais e administrações tributárias. Essa discrepância entre a intenção política e a execução representa uma evidente falha estrutural na região. Só o Brasil responde pela mesma quantidade de incidentes de extorsão e ransomware que a soma dos cinco maiores mercados seguintes (México, Argentina, Peru, Colômbia e Chile), o que reflete a dimensão do problema e a vulnerabilidade subjacente.
O BID observa que os ataques cibernéticos na região já afetaram administrações tributárias, portos e hospitais, enfatizando que o risco cibernético evoluiu de uma questão individual e corporativa para uma preocupação de segurança soberana e pública.
Incidentes recentes de grande impacto expuseram a fragilidade dos sistemas básicos da América Latina. O ataque de ransomware à Pemex, no México, em 2019, interrompeu as operações1, o vazamento de dados de 2019 no Equador comprometeu as informações pessoais de mais de 20 milhões de cidadãos2, o Banco do Chile sofreu ataques em 2018 e 2020 que resultaram em perdas financeiras e violações de dados3 e o ataque de ransomware de 2020 à Telecom Argentina paralisou o atendimento ao cliente por um longo período4.
Em 2022, o Ministério das Finanças da Costa Rica foi alvo do grupo de hackers russo Conti 2, que manteve informações confidenciais dos cidadãos como reféns para exigir resgate e paralisou a capacidade do governo de fornecer serviços essenciais. Em resposta, a Costa Rica se tornou o primeiro país do mundo a declarar estado de emergência em razão de um ataque cibernético5.
Em outro caso recente, a MedicSolution, fornecedora brasileira de software para o setor de saúde, foi alvo do grupo de ransomware KillSec em setembro de 20256, expondo dados confidenciais de pacientes em hospitais e clínicas. Quase ao mesmo tempo, as autoridades brasileiras descobriram uma falha no sistema de pagamentos instantâneos PIX, pela qual funcionários e hackers roubaram aproximadamente US$ 100 milhões. Isso levou o Banco Central do Brasil a anunciar medidas imediatas para reforçar a segurança do sistema financeiro.
Esses incidentes ressaltam um tema recorrente: as vulnerabilidades dos setores público e privado estão profundamente interligadas, criando ciclos de feedback que ampliam o risco sistêmico.
A expansão digital da América Latina é evidente e segue como uma das principais tendências econômicas. O uso da internet aumentou de 49% em 2014 para 82% em 2024. O mercado de comércio eletrônico também está se desenvolvendo rapidamente, crescendo a um ritmo 1,5 vez superior que a média global7. Além disso, o ecossistema de Internet das Coisas (IoT) está ganhando força, com o mercado gerando mais de US$ 4 bilhões em receita em 2024 e com previsão de crescimento a uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) de 15% até 2030.
Com a multiplicação de dispositivos conectados a aplicativos industriais, de consumo e de logística, o aspecto negativo desse aumento é a falta de preparo. Atualmente, os ataques de ransomware representam quase metade de todos os incidentes cibernéticos na América Latina, sendo as instituições governamentais e as empresas financeiras os alvos mais frequentes.
A corrida da região para adotar tecnologias de nuvem e IA será insustentável sem investimentos proporcionais em segurança. Países como o Brasil e o Chile apoiam vários projetos de nuvem e data center, com o mercado doméstico projetado para dobrar até 2029 entre US$ 8 e 9 milhões8. Apesar desses avanços, a segurança de rede e a supervisão regulatória estão anos atrasadas em relação aos padrões dos mercados desenvolvidos.
Quando o risco estrutural persiste, o investimento inevitavelmente o acompanha, sobretudo porque a segurança cibernética é cada vez mais reconhecida como infraestrutura essencial, não como uma despesa discricionária de TI. Nos mercados desenvolvidos, tensões geopolíticas recentes e sistêmicas repetidas indicam que a segurança cibernética tornou-se um requisito operacional básico. Nos EUA, a Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura (CISA) coordena a comunicação intersetorial, enquanto a UE reforçou as regras por meio da NIS2 e da DORA, impondo requisitos mais rigorosos aos setores essenciais e financeiro.
Embora governos e empresas estabeleçam padrões de reporte e requisitos regulatórios, não cabe a eles implementar diretamente uma infraestrutura segura. Em vez disso, dependem de empresas privadas especializadas em proteção em nuvem, monitoramento de endpoints de extremidade e resposta a incidentes. No entanto, essa privatização traz novos problemas.
Nem mesmo os principais fornecedores de segurança estão imunes a falhas, e frequentemente se tornam alvos de grandes ataques. Por exemplo, uma atualização problemática da CrowdStrike, em julho de 2024, desencadeou uma das maiores interrupções de TI da história; já a violação de segurança entre a Microsoft e a Midnight Blizzard em 2023 expôs dados confidenciais do governo. Outros incidentes — como problemas com sistemas de tokenização e gestão de identidades na Palo Alto Networks, na Zscaler e na Okta — destacam os riscos sistêmicos associados à dependência excessiva de um pequeno conjunto de fornecedores. Apesar dessas ameaças, o investimento em segurança cibernética continua aumentando. A Gartner projetou recentemente que os gastos globais ultrapassarão US$ 213 bilhões em 20259, impulsionados pela demanda por arquiteturas de confiança zero e ferramentas de detecção habilitadas por IA.
Nesse contexto, governos e empresas locais se modernizam — expandindo a cobertura de banda larga, construindo data centers e experimentando sistemas baseados em IA — mas o investimento e a governança em segurança cibernética ficaram para trás, resultando em um ciclo de recuperação de vários anos. A coordenação regional está melhorando, com a Rede CSIRT das Américas, que hoje conecta 52 equipes de resposta a incidentes de segurança cibernética em 22 países, o que facilita o compartilhamento de informações e a resposta a incidentes. Essa base institucional provavelmente sustentará a entrada contínua de capital.
Fornecedores globais estão respondendo a essas dinâmicas de mercado, com o setor de segurança cibernética da América Latina registrando um aumento significativo na realização de negócios.
Recentemente, a CrowdStrike expandiu a presença regional por meio de parcerias no México e no Brasil, levando sua plataforma Falcon, baseada em IA, a uma base empresarial mais ampla. Em paralelo, a Experian adquiriu a empresa brasileira de proteção contra fraudes ClearSale por US$ 350 milhões10, sinalizando o interesse global nos mercados de segurança e proteção de identidade da região.
A Zscaler expandiu ativamente a infraestrutura de Zero Trust Exchange na América Latina, estabelecendo data centers nas principais cidades para reduzir a latência e cumprir as novas leis de proteção de dados. No final de 2025, o Hiberus, da Espanha, concordou em adquirir as operações da Telefónica Tech na Colômbia, no México e no Chile, para fortalecer os recursos de segurança cibernética e nuvem na região.
O venture capital também segue para o setor. A startup uruguaia de testes de segurança Strike levantou US$ 13,5 milhões em uma rodada Série A em 202511 para expandir sua plataforma de testes de penetração para o Brasil e os EUA, enquanto a SaaS argentina de conscientização sobre phishing Whalemate garantiu US$ 1 milhão em uma rodada seed12 em meados de 2025 para escalar sua plataforma. Os compromissos do setor privado refletem uma onda regional de gastos: o mercado de segurança cibernética da América Latina deverá crescer a uma taxa de crescimento anual composta de 12,4% de 2026 a 203313.
Em paralelo, os governos estão priorizando a segurança cibernética, desenvolvendo políticas nacionais, estruturas regulatórias e centros de resposta a ameaças para lidar com um cenário de riscos em constante mudança. A Argentina criou recentemente o Centro Nacional de Segurança Cibernética para supervisionar a proteção de infraestruturas básicas, enquanto a Agência Nacional de Segurança Cibernética do Chile identificou mais de 900 organizações como operadoras de importância vital, reforçando o foco do país na proteção de serviços essenciais. A Agência de Transformação Digital do México lançou um plano nacional abrangente de segurança cibernética, incluindo novos centros operacionais e diretrizes obrigatórias para servidores públicos. Na Venezuela, foi proposto um projeto de lei de segurança cibernética com o objetivo de defender o país contra ameaças externas. Essas iniciativas, somadas a implantação de mais de 50 centros operacionais de resposta a incidentes em toda a região, refletem um crescente compromisso do setor público com a maturidade e a resiliência em segurança cibernética.
A segurança cibernética evoluiu de uma despesa tática para um tema de investimento estrutural, intimamente ligado à expansão digital, às mudanças geopolíticas e às transformações regulatórias. O principal desafio já não reside na inevitabilidade da digitalização, mas sim na capacidade das instituições de ampliar competências com rapidez suficiente para proteger as infraestruturas críticas e sustentar o investimento contínuo. Com a aceleração da computação em nuvem, dos pagamentos digitais, da digitalização da saúde e da adoção da IA, os gastos com segurança cibernética tendem a aumentar, independentemente das condições econômicas gerais.
Para os investidores, as questões fundamentais não são se os orçamentos de segurança cibernética vão crescer, mas sim quem vai capturar esse crescimento, como os ecossistemas de fornecedores vão se diversificar e como mercados emergentes como a América Latina vão superar a lacuna de resiliência. Nesse contexto, a segurança cibernética é mais do que uma medida defensiva; é um motor de crescimento em longo prazo, intrinsecamente ligado ao futuro digital da região.
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