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Segundo turno das eleições no Brasil: Lula conquista o quarto mandato

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, representante da esquerda e atual ocupante do cargo, venceu o segundo turno das eleições presidenciais do Brasil em 25 de outubro, derrotando o senador de direita Flávio Bolsonaro com 51,8% dos votos, contra 48,2%, uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos. O resultado rompe uma tendência histórica: desde 1989, em todas as sete eleições decididas no segundo turno, o candidato que liderou o primeiro turno saiu vitorioso. Desta vez, Bolsonaro havia obtido 47,03% dos votos no primeiro turno, contra 45,16% de Lula. A eleição brasileira encerrou o ciclo eleitoral de 2025-2026 na América Latina e foi a única desse período vencida por um candidato de esquerda.

Lula iniciará seu quarto mandato em um cenário político mais desafiador do que nos três anteriores, com um Congresso de tendência conservadora, um governo dos Estados Unidos alinhado a seu adversário e países vizinhos que, em sua maioria, elegeram governos de direita. Os mercados já haviam precificado uma vitória de Bolsonaro, razão pela qual esperamos uma reação inicial negativa. No médio prazo, prevemos que o impacto sobre o crescimento econômico será, de modo geral, neutro.

A agenda de Lula diante de um Congresso de tendência conservadora

Lula centrou sua campanha na continuidade de suas políticas: manter a regra fiscal adotada em 2023, que limita o crescimento dos gastos federais; proteger os programas sociais; e utilizar o investimento público, as empresas estatais e os bancos públicos para impulsionar o crescimento econômico.

Grande parte dessa agenda já está em vigor e pode ser mantida sem necessidade de votação no Congresso. Isso inclui a regra fiscal, os aumentos reais do salário mínimo, a isenção do imposto de renda para quem recebe até R$ 5.000 por mês (em vigor desde janeiro de 2026), o programa de infraestrutura Novo PAC e a estratégia da Petrobras, petrolífera controlada pelo Estado, que prevê seu retorno ao segmento de distribuição de combustíveis.

O Congresso também já aprovou uma emenda constitucional que põe fim à semana de trabalho de seis dias. A medida foi aprovada no Senado em 14 de outubro, por 75 votos a favor e um contra, com o apoio de Flávio Bolsonaro, e agora aguarda promulgação. A emenda reduz a jornada máxima de trabalho para 42 horas semanais dois meses após sua publicação e para 40 horas um ano depois, sem redução salarial.

O restante da agenda inclui novas medidas que precisarão passar por um Congresso no qual os aliados de Lula são minoria. O Poder Legislativo brasileiro é composto por duas casas: a Câmara dos Deputados, com 513 cadeiras, e o Senado Federal, com 81. As novas propostas se dividem em dois grupos:

  • Leis, que exigem maioria nas duas casas: novos impostos sobre altas rendas, redução de benefícios fiscais, ampliação do programa de transferência de renda Bolsa Família, criação de um Ministério da Segurança Pública e regulamentação do trabalho por aplicativos. A maioria dessas medidas exige o voto favorável da maioria simples dos parlamentares presentes, enquanto as leis complementares, como as que regulamentam o trabalho por aplicativos, precisam do apoio de 257 deputados e 41 senadores.
  • Emendas constitucionais, que exigem o apoio de três quintos dos membros de cada casa em dois turnos de votação, ou seja, 308 deputados e 49 senadores: ampliação da atuação do governo federal na área de segurança pública.

Agrupando os partidos de acordo com seu alinhamento no segundo turno das eleições, a composição do Congresso que tomará posse em 1º de fevereiro será a seguinte:

Composição do Congresso por bloco

Distribuição de cadeiras no Senado e na Câmara

Mesmo com o apoio de todos os partidos não alinhados, a coalizão de Lula não alcançaria a maioria em nenhuma das duas casas. Portanto, para aprovar grande parte das novas medidas, precisará dos votos do centrão, um grupo de partidos pragmáticos que tradicionalmente apoiam os governos em exercício em troca de cargos ministeriais e recursos orçamentários.

Implicações para os mercados

Esperamos uma reação negativa dos mercados no curto prazo, embora não consideremos que o resultado eleitoral represente uma mudança duradoura nas perspectivas para o Brasil. Após o primeiro turno, os mercados rapidamente passaram a precificar uma vitória de Bolsonaro. Em 5 de outubro, primeiro pregão após a votação, o Ibovespa, principal índice de ações brasileiro, registrou sua maior alta diária em seis anos. Na semana seguinte, as taxas de juros de longo prazo caíram cerca de 150 pontos-base, para aproximadamente 12%.

Na renda fixa, é provável que as taxas de juros de longo prazo voltem a subir parcialmente após a queda recente e que os mercados passem a precificar menos cortes na taxa Selic, a taxa básica de juros do Banco Central, atualmente em 13,75%. O real também poderá devolver parte dos ganhos recentes. No entanto, a perspectiva de juros elevados por mais tempo mantém o retorno adicional proporcionado por posições na moeda, conhecido como carry, entre os mais altos dos mercados emergentes, o que deverá ajudar a limitar sua depreciação.

Na renda variável, esperamos uma correção cuja intensidade deverá variar conforme o setor. Os bancos e outras ações de empresas brasileiras sensíveis às taxas de juros lideraram a alta após o primeiro turno e estão mais expostos a uma reversão desses ganhos. Em contrapartida, as empresas exportadoras, como a mineradora Vale e a produtora de celulose Suzano, que ficaram para trás durante a valorização do real, estão mais bem posicionadas. As perspectivas para a Petrobras e outras empresas ligadas ao Estado são mais heterogêneas.

Além da reação inicial, a continuidade dos gastos públicos deverá sustentar o consumo, com um impacto, de modo geral, neutro sobre o crescimento econômico. Já os possíveis ganhos adicionais no mercado de ações provavelmente dependerão mais do apetite global por ativos de mercados emergentes do que de fatores domésticos.

Pontos de atenção

Uma questão central para os mercados é se passarão a precificar uma deterioração adicional da situação fiscal do Brasil. A dívida pública bruta atingiu 82,9% do PIB em agosto, e a maior parte do orçamento é destinada a despesas obrigatórias, o que deixa pouca margem para ampliar os programas existentes sem novas fontes de receita.

Os primeiros sinais virão da escolha do ministro da Fazenda e do orçamento de 2027, que deverá ser aprovado pelo Congresso até o fim do ano. A nomeação de um ministro que inspire confiança aos mercados e um orçamento que respeite a regra fiscal ajudariam a reduzir essas preocupações. Por outro lado, sinais de uma política de gastos menos restritiva provavelmente manteriam elevados os juros de longo prazo e o prêmio de risco do Brasil. Em fevereiro, o Congresso elegerá os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, responsáveis por definir a pauta legislativa. O resultado permitirá avaliar com quanto apoio o governo poderá contar para aprovar suas propostas.

No cenário internacional, uma redução da tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos parece menos provável do que seria sob um governo Flávio Bolsonaro. Já as relações com a China, destino de aproximadamente 29% das exportações brasileiras, deverão permanecer intactas.

Outra questão importante é como Lula pretende construir seu legado. Aos 80 anos, ele não poderá concorrer `a uma reeleição em 2030. Poderá priorizar os programas sociais, o investimento público e as reformas trabalhistas, o que sustentaria o consumo, mas também aumentaria as pressões fiscais. Outra possibilidade seria buscar deixar uma economia estável e contas públicas mais sólidas. A forma como equilibrará esses objetivos será um fator determinante para o desempenho dos ativos brasileiros até o fim da década.

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A vitória abre caminho para um cenário político mais desafiador, com um Congresso de tendência conservadora e pressões fiscais crescentes. Embora se espere uma reação negativa inicial dos mercados, o impacto sobre o crescimento econômico do Brasil deverá ser, de modo geral, neutro.

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